quarta-feira, 6 de setembro de 2023

Porque hoje me apetece...

Há dias que cansam por não se fazer nada, ainda que haja muito por fazer.

Há imenso tempo, talvez à volta de cinquenta anos, que brinco, falando a sério, convencido, que, - antes dos cem ninguém me leva, nem morto, nem “Lá o de Cima”, acrescentando sempre, olhando para o alto, não se vá Ele esquecer - já tenho contrato assinado!

Diverte-me olhar a expressão das pessoas quando pronuncio tais palavras.

Uns, sorriem pálidos, duvidando da minha sanidade mental, perante o meu atrevimento, de desafiar o omnipresente. Não os censuro, também eu, muitas vezes, duvido de mim próprio. Outros, tentam acompanhar a brincadeira, a medo, perguntando, como estabeleci o contrato, ou afirmando que também querem fazer o mesmo. Digo-lhes sempre que é um contrato exclusivo.

Acredito mesmo, que sou capaz de cumprir este contrato e até talvez, prorrogá-lo por mais uns tempos.  

Numa época em que cada vez há mais centenários, porque havia eu de ficar a meio, ou “às portas”?

Este meu convencimento, advém da minha linhagem, especialmente paterna. Ainda criança, lembro-me de uma tia do meu pai, velha, velha, encurvada, a cabeça quase batia no chão, só pele e osso, mas sempre a andar, o meu pai se fosse vivo, teria hoje cento e dez anos, morreu com noventa e cinco.

Estou convencido que morreu quando quis morrer e porque quis morrer. Achou que já chegava. Ainda hoje, tenho um tio, irmão do meu pai, com noventa e cinco anos, ainda com saúde, felizmente.

Ou seja, o meu contrato tem fundamentos. Quando o estabeleci, queria bater o “record” de todos eles.

Hoje, neste momento, já não sei se quero.

Viver cansa!

Hoje, pela primeira vez, começo a sentir medo do meu querer, mas não do meu crer.

Começo a sentir medo que, o omnipresente me obrigue a cumprir o contrato, não permitindo aditamentos, nem incumprimentos.

Apetece-me “fazer férias da vida”, quero acrescentar este aditamento e voltar quando estiver saturado das férias.

Já obtive a resposta, e Ele, o Omnipresente, diz-me que não admite tal clausulado.

Diz-me que, se meto “férias da vida” é para sempre!

Diz-me que, não há férias da vida, porque esta continua noutra dimensão…

Viver cansa! Cansa! Cansa demais!

Assim não vamos descansar nunca!

Que cansaço!

FOOOSCA_SE!

 

domingo, 6 de agosto de 2023

Jornadas mundiais da juventude

 

Agora que terminaram as jornadas mundiais da juventude é hora, penso, de fazer um "balanço".
Antes de mais, e porque já o manifestei aqui publicamente, por diversas vezes, não vou ser hipócrita e dizer o contrário do que hoje em dia "acredito", ou é a minha "fé", só porque pode cair mal, no âmago dos muitos "crentes" ou os que assim se acham...
Hoje em dia, não acredito na existência de Deus. Já "outros", com muita maior capacidade intelectual que a minha,o disseram: - Deus é uma invenção do ser humano. 
Felizmente para nós, o homem ao criar Deus, não o fez à sua imagem e semelhança. Teve a capacidade e ousadia de o fazer "maior". 
Ao contrário,  quando nós é dito que Deus criou o homem, entenda-se, humanidade, à sua imagem e semelhança, eu, simples pecador, não acredito, ou dúvido muito. 
Podia dizer as razões da minha não "crença", mas isso seria outro "caminho". 
Não acredito na existência de Deus.
Acredito na existência de Jesus Cristo.
- Blasfémia! Estou a ouvir as vossas palavras, as dos crentes, claro!
- Como é que alguém pode afirmar que acredita na existência de Jesus Cristo, e, não acredita na existência de Deus!?
Simplesmente, porque acredito que, Jesus Cristo, nasceu do "uso" carnal do homem e da mulher. 
Não há nenhuma intervenção "divina".
Jesus Cristo é filho de um homem e de uma mulher, ponto, tal como eu, ou tu que me estás a ler. 
Jesus Cristo é tão filho de Deus, como eu ou tu, se é nisso que acreditamos.
A vida de Jesus Cristo é uma história, muito bem inventada e criada por ele próprio, ao se autoproclamar "FILHO D E DEUS".  
Como toda a história bem inventada, cria os seus "seguidores". À semelhança dos dias de hoje, que todos são "influensers" e os restantes, o "rebanho", os seguidores. 
Como disse, acredito na existência de Jesus Cristo, o que faz de mim um cristão. 
Aprecio, e gostaria muito de "seguir" todos os seus ensinamentos de "humanidade". 
Que diferente seria o mundo se todos fossemos CRISTÃOS. 
Ser cristão não é ser católico apostólico romano. Ser Cristão é "seguir" CRISTO e isso, é tão difícil para todos os que se dizem cristãos...
Deixo as perguntas e os desafios: 
- És Cristão? Então "Segue" CRISTO.
Não fiques à porta, na palavra, "ENTRA". Passa à acção.
- O que trouxeram ou trazem as Jornadas Mundiais da Juventude?
- Será que, como diz o papa, "TODOS", "TODOS", "TODOS", cabemos nesta "Igreja" que é mundo?
- Quantos deixamos à porta? Mesmo aqueles que têm a ousadia de entrar, há os que se intitulam "conservadores", defensores do templo, e quais "anjos protetores" com crucifixo a fazerem de "espada", expulsam os "seguidores", memo tendo acabado de ouvir, pela voz do seu líder, as portas estão abertas a todos, todos, todos, cada um em sua língua, repita comigo, todos, todos, todos.
- O que é que cada um dos jovens e menos jovens, em suas terras, faz após o encerramento das jornadas?
- Apanham o avião...pensando que assim ficam mais perto de Deus.
Se és cristão, segue CRISTO, assim de simples...ou não.

sexta-feira, 9 de junho de 2023

Pedaços de mim - Socorrista

A foto é testemunha da satisfação do paciente

Continuando a vasculhar nos longínquos anos de oitenta e ainda no cumprimento do serviço militar obrigatório, no exercício da especialidade de socorrista na Casa de reclusão de Elvas, recordo alguns “prazeres”.

Como referi anteriormente sempre senti uma certa apetência para a área da saúde. Sentia curiosidade, para além do gosto, sentia que tinha sensibilidade suficiente e necessária para tentar ajudar os outros.

Não lamento, nem me arrependo dos caminhos que a vida me levou, podiam ter sido outros, mas não foram, há que aceitá-los e tirar o maior proveito e prazer deles. Modéstia à parte, acho que, se o meu caminho tem sido o da saúde, daria com toda a certeza, um óptimo enfermeiro.

Embora hajam mais de quarenta anos que não mexa numa compressa, numa seringa e agulha, em desinfectantes etc. para além do trivial do nosso dia-a-dia, de colocar um penso rápido, numa ou outra ferida que façamos, apesar de todo este tempo decorrido, ainda me lembro bem da forma correcta de limpar uma ferida, de como imobilizar correctamente um membro, de como apertar o garrote, especialmente no pescoço, de alguns se necessário, ahahah… de como fixar uma ligadura numa perna, sem que ela caia e sem usar adesivos e se necessário dar uma injecção quer subcutânea quer intravenosa.

Alguns dirão: - “gaba-te cesta que vais à vindima”, pois que seja, o meu auto convencimento vem dos elogios quer dos superiores hierárquicos quer dos camaradas que então prestaram serviço comigo.

O posto de socorros/enfermaria da Casa de Reclusão ficava no claustro interno que, servia de pátio/recreio dos reclusos e que também dava acesso ao Tribunal Militar De Elvas.

Todos nós, em alguma situação de maior desilusão, já dissemos que, a vida de preso é que é boa, não fazemos nada e temos cama, comida e roupa lavada. A verdade é que nenhum de nós, conscientemente, a quer experimentar.

Porque vivi um período da minha vida, directamente com presos, eu não a quero para mim, nem consciente nem inconscientemente. Os “pobres coitados” porque não tinham nada que fazer, entretinham-se a chatear as cabeças dos socorristas, inventando doenças e outros achaques.

Porque eu tinha uma paciência de Job, comparada com a dos outros socorristas, era vê-los a espreitarem o momento em que eu estava de “socorrista de dia”, para me irem pedir tudo e mais alguma coisa. Entenda-se, este “tudo e mais alguma coisa”, eram medicamentos ansiolíticos. 

Estes medicamentos, quer fossem orais quer fossem injectáveis, como é óbvio, só podiam ser ministrados com prescrição médica.

Não é fácil lidar com esta população. Em algumas ocasiões, havia fortes indícios, de alguns comportamentos descambarem em violência.

Narrei muitos desses comportamentos aos médicos, muitos dos que por lá passaram eram aspirantes médicos, sendo um deles, mais permanente, o Dr Melo e Sousa.

Era o único socorrista, incluindo o sargento enfermeiro, que tinha ordem expressa de, sempre que visse uma situação de, “caso mal parado”, injectasse uma ampola de água destilada. Em último recurso, se visse que a situação assim o exigia, ministrasse mesmo o medicamento.  

Mas, o meu “prazer maior” era antes da injecção, mostrar uma agulha de seis centímetros. Uma autêntica bisarma.      

Naquela altura, haviam especialmente dois medicamentos que eram muitos ministrados por via subcutânea.

Um era a mistura de “Ricon e Commel”, acho que eram assim que se chamavam, ambos muito oleosos, o que a tornava muito difícil de ministrar. O outro, à base de penicilina, que antes tínhamos de diluir com uma ampola de água destilada, no respectivo frasco que continha o pó. Por mais que agitássemos o frasco, era dificílimo fazermos uma diluição eficaz, de modo a conseguir-se injectar todo o líquido de uma só vez utilizando uma agulha mais pequena, logo mais fina. Acontecia-me, muitas vezes, ter de espetar mais de uma agulha, para conseguir injectar todo o líquido, o que, para além de poder provocar alguma dor no paciente, era incomodo para mim e para ele.   

Já farto, de tantas vezes ver entrar metade do líquido, enquanto que a outra metade escorria, literalmente, pelas nádegas, ia dizer nalgas, do paciente, decidi aventurar-me, porque constituía um desafio, espetar a dita cuja de seis centímetros.

Então não é, que a dita cuja, entrou até ao ”tutano”. Não, não chegou a entrar no osso, havia muita carne antes…entrou até à parte metálica, ou seja só se via a cabeça da agulha.

Fiquei radiante. Consegui injectar todo o líquido de uma só vez e uma só picada.

O próprio paciente também ficou satisfeito por o ter picado apenas uma vez e não ter sentido nada.

Quando lhe mostrei a agulha, nem queria acreditar, vi jeito de ele desmaiar. Ahahah

A partir daí passou a ser a minha agulha preferida. Para além do prazer que me dava mostrá-la, antes de a espetar, divertia-me imenso ver a cara deles de espanto e temor, ao ponto de alguns, inicialmente se recusarem a que eu a espetasse.

Mas todos tinham de levar com ela…ahahah. Acabaram por gostar e, só queriam que fosse eu a espetá-los…ahahahah 
 

quarta-feira, 24 de maio de 2023

Pedaços de mim - Casa de Reclusão/Elvas

Bar/Sala - Casa de Reclusão/Elvas

 Como já antes disse, depois de   terminar a recruta e ter   frequentado  a especialização de   Socorrista foi-me proposto   escolher entre o Regimento de   Infantaria e a Casa de Reclusão   com a preferência que me queriam   no Regimento de Infantaria. Não   sei porquê, talvez porque, já naquele tempo era um bocadinho do contra, decidi escolher a Casa de Reclusão, daí a minha colocação nesta Unidade Militar.

Era seu Comandante o “famoso” e conhecido Major Sá, figura incontornável e muito discutida, por aquilo que se dizia à boca fechada, no meio social Elvense, pela sua brutalidade, no tratamento, quer em termos humanos quer em termos militares.

O homem tinha estado na guerra nas ex. colónias ultramarinas. Numa dessas campanhas, se a memória não me falha, penso que na Guiné, perdeu a visão de um dos olhos, para além de outras mazelas, muitas delas grande também, e a mão, já não me recordo muito bem se a direita ou esquerda, mas parece-me ainda ver o coto do antebraço direito a terminar na parte que corresponderia à mão com uma espécie de dois dedos.   

O homem tinha cavalos de sua propriedade particular, nas instalações/casas, pertencentes ao aquartelamento que ficam na frente e na parte exterior. Escusado será dizer que, este digno oficial do exército português tinha como empregados, os próprios militares do aquartelamento, os quais tratava a ferro e fogo.

O que era importante para ele, não eram os militares, eram os cavalos.

Hoje seria acusado de peculato. Nesta altura, estes vícios constituíam um “Status”, pelo que era considerado normal estas regalias e mordomias e ninguém ousava pensar sequer, que aquilo era um “roubo”. Senão, mais de metade, para não dizer todos, dos oficiais das forças armada e forças militarizadas, GNR, GF, Polícia de Segurança Pública e dirigente do funcionalismo público teriam ido cumprir penas de prisão na “minha” Casa de Reclusão. Mas, não! nunca lá vi nenhum! menos ainda, por “tais crimes”.

Ainda estou a ver o “carocha” preto, transportar as refeições dele e da família, para além de o ir apanhar a ele em casa, transportar as filhas e a esposa. Permitam-me a ousadia, as filhas e a esposa, espanhola, para além de muito bonitas eram muito simpáticas, especialmente a filha mais velha era, ainda deve ser, porque a beleza é inata, linda de morrer, acho que, platonicamente, ainda cheguei a apaixonar-me, só que era areia demais para a minha camioneta, com a agravante que nem camioneta tinha, mas não fui o único.

Ela ao invés, ao que se dizia, na caserna, estava apaixonada pelo gajo mais feio, gordo, figura de barril, mas tratava dos cavalos e ajudava-a a montar... naturalmente o cavalo, ou égua, acho que era égua. Bem que se aproveitou a passar as mãos numa tão grande beleza.    

Bom! A verdade é que ainda hoje, infelizmente, assim continuamos. Quem está no poder, continua com as mesmas regalias, mordomias, e alcavalas. E nós, os pagantes, continuamos na mesma, calados que nem ratos e pior ainda, continuamos a pensar que faz parte do “Status”.

Paga Zé!  

Quando comecei este texto, nem sequer tinha pensado, em falar do comandante e do seu “status”. Era para falar sobre os pedaços de mim, pois então, vamos a eles.

Dada a fama de que o comandante Sá gozava na cidade, a minha mãe quando soube que eu iria para a Casa de Reclusão ficou apavorada. Deve ter imaginado que eu iria ser sovado todos os dias e o fim dos meus dias estaria próximo. E não, não estou a exagerar, os do meu tempo e mais velhos lembrar-se-ão desta figura. O homem era temido na cidade. Não sei se ainda é vivo, mas se for, certamente concordará comigo. 

Pessoalmente, não tenho nada que dizer do Comandante Sá, quer em termos de tratamento humano quer em termos de tratamento militar, à parte uma historieta, que se me lembrar conto no próximo texto. 

 

domingo, 21 de maio de 2023

Pedaços de mim - Vida de "Pronto"

 

A formação da especialidade de socorrista foi frequentada no Hospital Militar de Évora, no final de mil novecentos e setenta e nove início de mil novecentos e oitenta, já não sei precisar qual a sua duração. Os que foram militares do “meu tempo” certamente se lembrarão melhor que eu.

O que vos quero contar não tem propriamente a ver com a formação da especialidade, já que esta decorreu normalmente e aprendi o que tinha de aprender.

Terminada a especialidade, fui colocado da Casa de Reclusão de Elvas.

Para esta unidade militar eram enviados os “criminosos militares” para cumprirem penas de prisão, essencialmente composta por desertores do exército. Também havia um ou outro militar da GNR e da ex. guarda fiscal a cumprirem penas de prisão por uma ou outra condenação.

Tenho duas ou três histórias que de alguma forma me “marcaram” e quando digo marcaram é simplesmente porque me ficaram na memória por serem inusitadas e não por nenhum outro motivo mais extraordinário.

Não sei se consigo contá-las num único texto. Não quero que estes sejam demasiado extensos para não vos saturar e ter quase a certeza que leem até ao fim.

Como já disse num texto anterior, tive a sorte, continuo-o a se um “sortudo”, de ter feito a tropa na minha cidade natal. Vantagem de Elvas ter sido uma cidade militar. Hoje é uma sombra do seu passado histórico, mas não é por aí que quero ir, mas sim voltar à minha história. Ah! Só mais um reparo, que isto de escrever ou falar é como as cerejas vêm uma atrás das outras e não é por acaso, estamos mesmo na época delas, mas a um preço astronómico, que só os pássaros as podem comer e de borla…é a minha história e não “estória” que isto de estória faz-me lembrar sempre o papel higiénico…mas adiante.

No primeiro mês de “pronto” e já promovido a primeiro cabo, tinha direito a dormir, e comer no quartel, embora quase sempre fosse dormir e comer a casa. O comer da mamã era outra coisa.

Se a memória não me falha muito, éramos pagos no período da recruta com trezentos escudos por mês (300$00). Para os que eventualmente não sabem o que eram os escudos, era a moeda portuguesas antes da adesão ao euro, o que hoje seriam um euro e meio (1,50 €), tanto dinheiro...

Como primeiro cabo, mas “arranchado”, este palavrão vem de rancho e este significa comer/iguaria, logo com direito a comer e dormir, “ganhava” mil e quinhentos escudo por mês (1500$00) ou um conto e quinhentos, hoje sete euros e meio (7,50 €).

Passados dois ou três meses “desarranchei-me”, depois de perceber que podia fazê-lo, obtendo com isso uma ligeira vantagem monetária e passei a ganhar qualquer coisa como cinco mil e quinhentos escudos (5500$00),  ou cinco contos e quinhentos, hoje vinte e sete euros e meio (27,50 €), o que para a altura, um jovem sem compromisso e que ainda-por-cima comia e dormia à conta dos papás era uma “pequena fortuna”.

Foi especialmente nesta fase que comecei a juntar/guardar dinheiro. Sempre ouvi a minha mãe dizer que grão a grão enche a galinha o papo. E de facto, a minha “galinha” “encheu o papo”, terminei o “tempo obrigatório” com mais de cinquenta contos no papo.

Aos meus pais, o meu eterno agradecimento por me terem permitido fazer este “pé de meia”.

As histórias deste tempo virão no próximo “pedaços de mim”.     

Assim espero!


domingo, 14 de maio de 2023

Pedaços de mim - Instrução Militar/Vida de Recruta (II)

A partir desta publicação, o título destas crónicas passa a chamar-se "Pedaços de mim" 

No decorrer da instrução militar, ainda durante a recruta, e de acordo com as aptidões que cada um vinha demonstrando éramos seleccionados para mais tarde frequentarmos as especializações, dentro da arma de infantaria.

Talvez porque o comandante de pelotão, aspirante miliciano Prezado, era apontador de morteiro, e porque esta especialidade requeria conhecimentos de matemática e geometria, queria que eu fosse para esta especialidade.

Acontece que em mil novecentos e setenta e seis, tinha eu dezassete anos, o mais novo do curso, os outros eram já pessoas “bastante” adultas, por minha iniciativa e vontade, frequentei durante uns meses, não sei precisar quantos, um curso de primeiros socorros ministrado pela Cruz Vermelha Portuguesa – Centro Técnico de Socorrismo. Curso que adorei, talvez porque, durante a frequência do mesmo, modéstia à parte, era bastante elogiado pelos instrutores e inclusive pelos próprios colegas, o que me motivava ainda mais a esmerar na técnica e no conhecimento em geral.  

Quando fui à inspecção militar em Évora, “tirar as sortes” era assim que se designava, em mil novecentos e setenta e oito, foi-nos entregue um formulário que tínhamos de preencher, quase tipo “curriculum vitae”. Nesse questionário/inquérito mencionei que tinha um curso de primeiros socorros. O resultado da inspecção militar foi, naturalmente, “Apto para todo o serviço militar”. Ou seja, a “sorte” era que teria de ser “tropa”.

Voltemos à recruta. Apesar de já estar “sentenciado” pelo comandante de pelotão que iria ser apontador de morteiro, tal não veio a acontecer.

O primeiro sargento enfermeiro Ramos? que era enfermeiro no quartel de São Paulo em Elvas, também queria puxar a “brasa à sua sardinha” o mesmo é dizer à sua especialidade “Socorrista”, vai daí, consulta as fichas individuais de cada um e descobre que eu já tinha a “especialização”.

A enfermaria/posto de socorros do quartel ficava numa das portas exteriores laterais, à porta d’armas com acesso directo da rua.

Num dia, quando o pelotão em marcha, passava em frente à porta, o primeiro sargento enfermeiro dirigiu-se ao comandante de pelotão.

- Meu aspirante, só um minuto, preciso falar consigo.

O aspirante olhou-o de alto a baixo, imagino eu, a pensar como é que um primeiro sargento se atrevia a interrompê-lo em plena instrução. Não deu ordem de “alto” mas dirigiu-se para mais perto do primeiro sargento.

Soube mais tarde, nesse mesmo dia, no fim do período da instrução que me devia dirigir ao posto de socorros.

Fiquei atónito e com medo, o que se passava? para ter de ir ao posto de socorros, já que eu não me tinha queixado de nada.

Conforme a ordem recebida dirigi-me ao posto de socorros. O primeiro sargento afável e simpático perguntou-me

- Tem algum conhecimento de primeiros socorros?

Eu com alguma vaidade, respondi,

- Sim tenho, frequentei um curso na cruz vermelha.

- Então, você é a pessoa indicada para vir para a especialidade de socorrista.

- Acho que não, o “nosso” aspirante já me disse que ia para apontador de morteiro.

- Deixe isso comigo, você não quer ser socorrista na tropa?

- Não me importava.

Quem não ficou satisfeito com esta proposta foi o aspirante, mas eu não era visto nem achado no assunto, nada fiz, nem sabia se podia ou não fazer, para ir para uma ou outra especialidade. Fui apanhado no meio.

Passados mais uns dias, o primeiro sargento pede novamente que eu e mais três camaradas fossemos ao posto de socorros.  

Tinha uma surpresa para nós. Fez dois pares, para “testar” as nossas eventuais aptidões para uma eventual especialidade de socorrista, não se contentou com menos, cada um de nós, teria de dar ao outro, na nádega, uma injecção subcutânea de água destilada.  

O nosso pavor reflectiu-se de imediato nas nossas faces, não sei se ficámos brancos, se pretos, se vermelhos, mas que o pavor se via, se sentia, e se cheirava isso era inegável. Nenhum de nós, até então, tinha mexido numa seringa e numa agulha, menos ainda espetá-la, literalmente, no cu do outro…

Não é para me gabar, para infortúnio meu, fui o único que espetou a agulha à primeira. O difícil foi acertar o buraco da seringa com o buraco da agulha, tremia por tudo que era lado, de lembrar que nenhum deste material era descartável. Houve água destilada com fartura, a escorrer pelo rabo e pernas de cada um. Os nossos rabos viraram “passadores” das vezes que foram espetados.

Terminada a recruta, apresentei-me no Hospital Militar de Évora para frequentar o curso na especialidade de socorrista com vista à promoção a primeiro cabo.   


 Antes de terminar o fim do prazo, fiz a reciclagem 

 

quarta-feira, 10 de maio de 2023

Memórias do Cota - Instrução militar/Vida de Recruta

 

Sou o segundo a contar da direita

Após o dia da incorporação, no dia seguinte, cinco de Setembro de mil novecentos e setenta e nove, pelas 07h30, depois de tomado o pequeno almoço, já o descrevi na página anterior, teve início a instrução militar.

Pertencia ao 4º pelotão com o número 648, a partir deste dia deixámos de ter nome e éramos chamados e conhecidos pelos respectivos números.

Ainda tenho, mais ou menos, relativa boa memória, mas sempre senti dificuldade em “guardar” nomes das pessoas por muito tempo. Infelizmente, não me lembro do nome de nenhum camarada que comigo compartilhou esta vivência. Talvez porque sempre fomos um número… sei lá.  

Ao invés, penso ainda recordar o nome do comandante de pelotão, aspirante miliciano Prezado, natural de Estremoz, quanto ao furriel e ao cabo, por mais voltas que dê neste “disco rígido”, não encontro nada, apagou-se por completo, azar…ainda não havia a tal “nuvem” que guarda tudo. Mas, tenho memória de terem sidos excelentes seres humanos, exigiam o que tinham de exigir, naturalmente também porque exigiam deles, mas sempre “dentro dos limites”.

A instrução militar, como o próprio nome indica, tinha a ver com a vida de um futuro militar. Ordem Unida, marchar muito, marchava-se em passo de corrida para tudo e para nada. Quedas na máscara, consistia em se ir em formação de ataque, composta por uma secção, que são duas esquadras no total de onze homens, e reforço homens, porque naquela altura, ainda não havia mulheres no exército. Hoje serão onze militares ou onze pessoas de género indefinido? armamento, tínhamos de conhecer as armas e o seu funcionamento, a famosa G3,  e outras, desmontar, limpar e voltar a montar. Tiro efectuado na carreira de tiro do Falcato. Será que esta carreira de tiro ainda existe? Educação física, toda e mais alguma…legislação como o RDM – Regulamento Disciplinar Militar e CJM - Código de justiça militar. As unidades e regiões militares existentes, ah! naturalmente os postos (graduações) militares, primeiros socorros, enfim uma panóplia de coisa que tinamos de saber.

Quase no final da instrução que durava mais ou menos três meses de “vida dura” vinha a tão “desejada” semana de campo.  

Consistia esta “semana de campo” na ida para o campo, num imaginário “teatro de guerra”. Felizmente para todos nós a guerra nas ex. colónias ultramarinas já tinha terminado. Havia sempre um inimigo que invadia Portugal, se a memória não me falha eram sempre os espanhóis. Resquícios e medos do passado. Naturalmente ganhávamos sempre, ou seja os espanhóis continuavam a ser derrotados…pudera…eles nem apareciam…uns pelotões faziam de inimigo e outros de patriotas e assim se “brincava” às guerras.

Mas nisto somos bons, enganarmo-nos a nós próprios e pior ainda, deixarmo-nos enganar. Acreditar que ganhamos sempre, mas quem ganha são os outros, os que nos manipulam…no ainda hoje “teatro político”. Podemos continuar com manifestações, comissões de inquéritos parlamentares, demissões ou exonerações fictícias, que tudo isto não passa por ser apenas, “uma semana de campo”. Só que neste caso quem treina, brinca, são eles, políticos que, a cada dia estão mais espertos.

Ainda me lembro, a minha semana de campo foi invernosa. Choveu de dia e de noite. Andámos sempre ensopados. Dormíamos três recrutas, numa tenda que armávamos com três panos de tenda, tipo índio. Na “minha tenda” em vez de dormirmos três dormíamos quatro, talvez por eu ser tão magro que não ocupava espaço… O motivo foi outro, depois conto.

Não guardo má memória deste lapso de tempo da minha vida, para ser sincero, “até gostei”.  


segunda-feira, 24 de abril de 2023

Memórias do Cota - Incorporação no Exército

Só começamos a ter memórias quando deixamos de olhar para o umbigo e começamos a olhar para o rabo.

Quis fazer uma metáfora, mas acho que não consegui, como não sou de apagar, sigo em frente, para que não hajam dúvidas, esclareço o que pretendo dizer, começamos a ter memórias quando deixamos de olhar para a frente e começamos a olhar para trás. Já pertenço a esses, que olham mais para trás do que para a frente, daí permitir-me tê-las e descrevê-las.

Não o faço por vaidade ou por a minha vida ter sido assim tão importante...ou que seja do interesse dos outros/colectivo, embora, naturalmente para mim, ela seja o mais importante de tudo, por isso faço este exercício de ida ao passado, mantendo tanto quanto possível, os neurónios activos.

Pretendo ao mesmo tempo, que, vocês que me estão a ler, façam também este exercício. Já todos ouvimos “muita gente” dizer, “a minha vida dava um filme”. Porque é que é só a vida dos outros que dá um filme e a nossa não? desafio-os a criarem o vosso filme e mostrá-lo sem medos nem pudores.

Há quem só tenha, infelizmente, más memórias da sua passagem por esta vida. Duvido que haja alguém que só tenha boas memórias. Eu, como penso que será a maioria, tenho más e boas, embora me concentre nas que considero boas, mesmo que pareçam más aos olhos de outros.   

“Tive a sorte” de ter sido incorporado no exército, na minha cidade natal, Elvas, no antigo Regimento de Infantaria de Elvas, no pólo de São Paulo, onde hoje é a Escola Superior Agrária do Instituto Politécnico de Portalegre, a quatro de Setembro de mil novecentos e setenta e nove (04/09/1979), terceiro turno.

Lembro-me perfeitamente, apresentei-me por volta das dezasseis horas, muito perto da hora limite de apresentação que eram as dezassete horas.

Esta hora e este dia estão marcados indelevelmente na minha memória, porque a minha mãe ainda “bastante cedo”, fez questão de me acordar…

- Filho, levanta-te que está na hora. Tens de te apresentares no quartel.

- Que horas são? ainda é de noite…                                       

- São oito da manhã, despacha-te.

- Hummm! Ainda não está na hora, é muito cedo, tenho o dia todo para me apresentar.

- Deves querer que te venham buscar. Despacha-te!

Levantei-me como era meu hábito, às oito exactas.

Engonhei o dia todo. Foi um misto de sensações e sentimentos.

Sabia que tinha de ir e queria ir, mas…sentia o tal arrepio na espinha o tremor na barriga, sei lá, o medo do desconhecido, por isso, atrasei o quanto pude a hora de apresentação. Era a primeira vez que saia de debaixo da saia da mamã. Sim, fui o “filhinho da mamã” enquanto ela viveu, talvez por ser o “caga no ninho”. Infelizmente, só me deu colo, literalmente, até aos vinte e oito, sentava-me muitas vezes no seu colo, num abraço que só nós dávamos.. Que saudades…desse colo, de nos sentarmos lado a lado e encostar a minha cabeça no seu ombro. De me sentar num banco mais baixo e deitar a minha cabeça no seu regaço. Do seu cheiro, do seu olhar embevecido e também às vezes de tristeza, de repreensão, mas sempre, sempre, com o imenso amor de mãe.

Pelas quinze e trinta saí de casa, subi a estrada de Santa Rita, atravessei o jardim municipal e depois o jardim das laranjeiras, subi a rua da cisterna, passei à frente da casa de reclusão e finalmente entrei na porta de armas. No percurso a pé, demorei sensivelmente meia hora Encaminharam-me para uma sala ao cimo da ligeira rampa onde estava a ser feita a incorporação. Distribuíram-me o fardamento e encaminharam-me para a caserna. Pelas dezanove horas mandaram-nos formar na pequena parada e fomos encaminhados por filas de cada um dos pelotões para o refeitório que ficava mesmo em frente, lamentavelmente já não me lembro o que foi o jantar, mas deve ter sido alguma feijoada com muito toucinho.… Foi uma apresentação e incorporação  normal, não guardo nenhum episódio que me tenha “marcado”. Às vinte e duas horas tocou ao silêncio, é um toque lindo. A partir desta hora, não podia haver luzes acesas nem barulhos. Dormi nessa noite e durante toda a semana no quartel. Foi a primeira vez que dormi fora de casa. Chegado o fim-de-semana, pude finalmente regressar a casa para passar umas escassas horas. Ainda assim, fui um felizardo, porque em pouco mais de quinze minutos, a pé, estava de novo em casa. Houve quem tivesse pela frente, muitos quilómetros de comboio ou autocarro, o que diminuía ainda mais o tempo de permanência em casa.

No dia seguinte pelas sete horas tocou a alvorada, o que significava que os que não estivessem já levantados tinham de se levantar, fazer as camas como nos tinha sido explicado no dia anterior. A primeira formatura era a do pequeno almoço, tomado este, que consistia numa água preta a que chamavam café, água diluída num pó branco, a que chamavam leite em pó, mas que sabia bem, eu gostava, ainda gosto do sabor do leite em pó, um pão com marmelada ou manteiga. Davam-nos quinze minutos para engolirmos tudo. Para nos levantarmos da mesa tínhamos de pedir autorização ao oficial de dia, só nos era dada, depois de todos termos terminado Findo este tempo tínhamos de formar novamente na parada para dar início à instrução militar.

 

segunda-feira, 17 de abril de 2023

Memórias do Cota - Provas de Admissão

Em Junho de 1981, recebi uma notificação em casa, proveniente do Comando Geral da Guarda Nacional Republicana, onde me mandavam apresentar, no mês de Julho, não sei precisar em que dia, no antigo Regimento de Cavalaria, pegado com o antigo Batalhão 1 em Lisboa, para fazer as provas de selecção/admissão à Guarda Nacional Republicana. As provas consistiam numa prova cultural escrita de conhecimento geral, matemática/aritmética, essencialmente contas nas quatro operações, divisão, multiplicação, subtracção e adição   e respectivas provas reais e prova dos nove. Penso que também tinham um ou dois problemas. Português, texto com  interpretação, uma redacção e um ditado. Devido ao sotaque de cada um, do instrutor "ditador", por vezes, tornava-se difícil perceber determinadas palavras, ainda por cima, palavras, muitas delas que nunca tínhamos ouvido antes, por isso mesmo, os erros ortográficos eram mais que muitos. Acho que só podíamos dar no máximo três erros e cinco falhas de acentos, se ultrapassássemos esta "bitola" estávamos eliminados. De lembrar que a escolaridade obrigatória era a 4ª classe. Já não tenho a certeza se também houve uma prova de história de Portugal.

Estas provas eram as primeiras e eram eliminatórias, o resultado sabia-se no mesmo dia passada uma hora por aí, só quem passasse nelas passava à prova seguinte que era o exame médico, também ele eliminatório.

Cheguei a pensar que os médicos e os oficiais que faziam parte do júri, me iriam “chumbar” , porque os ouvi comentar que eu era “muito magro”, isto seria “bullying” nos dias de hoje. Eu estava nos antípodas do perfil físico do “guarda tipo”, que por estes tempos, um guarda, para ser “guarda republicano” tinha de ser barrigudo, atarracado, sem pescoço, a parecer-se mais com um barril, e tinha de ter um farto bigode, de preferência a fazer caracol enrolado para cima. Ora eu, era magro, muito magro na opinião de alguns, modéstia à parte, elegante, imberbe, sem corpo e sobretudo sem “cara para levar uma chapada”, como ia pôr ou impor ordem ou respeito na população?   

Não são só os gordos que são atacados de bullying, mas adiante, devem ter visto mais alguma coisa, para além da minha “magreza”, ah! devo fazer aqui uma ressalva, eu era de facto magro, ainda hoje de certa forma sou, mas não era nem sou cadavérico, ahahah embora tenha uma foto com dezasseis anos, em calções de banho, que só se veem ossos, costelas especialmente…ahahah, depois de alguma discussão lá resolveram passar-me à prova seguinte, que seria a prova física, que consistia numa corrida de no mínimo de dois mil e quatrocentos metros (2400 m) no tempo máximo de doze minutos. Cem metros em oito segundos, cinco elevações na barra, não sei quantos abdominais, umas flexões de pernas, salto em comprimento de dois metros a pés juntos, sem impulso e já não me lembro se também, o salto de uma vala e um muro. As provas físicas se a memória não me falha decorreram em Monsanto. Isto de estarmos a escrever passados tantos anos, tem disto…a memória, deixa de ser memória e passa um pouco a ficção…    

Como não me pesava a gordura, transportar os ossos e a pele foi fácil…

Cada uma das provas físicas eram também eliminatórias. Ou seja, à medida que íamos fazendo provas, sabíamos se estávamos eliminados ou não.

No final do bloco das três provas, cultural, médicas e físicas estávamos reduzidos a menos de metade.

Passada uma hora ou pouco mais e já tomado o respectivo banho, os que tínhamos chegado ao fim, fomos reunidos numa sala, onde foi anunciado se todos tínhamos passado ou não.

De imediato, fomos conduzidos para uma outra sala, para escolhermos as unidade/subunidades onde queríamos frequentar o alistamento.

O alistamento era o que é hoje o Curso de Formação de Praças, ministrado em cerca de cinco meses e decorria a na zona norte, Porto, zona centro, Coimbra, zona de Lisboa, Zona Sul, área do batalhão 3 – Évora. Nesta zona em concreto que era a que me interessava, decorria em Portalegre, em Reguengos de Monsaraz, em Beja e em Lagos.

Sendo eu natural de Elvas e residindo nesta bela cidade, naturalmente, escolhi a cidade de Portalegre para frequentar o alistamento, por ser a que ficava mais perto.

Escolhido o local de frequência do alistamento, logo me disseram que o mesmo teria início no dia três de agosto de mil novecentos e oitenta e um, data em que me deveria apresentar no Comando da Companhia Territorial de Portalegre.  

(esta história tem seguimento)

 

sexta-feira, 7 de abril de 2023

Memórias do Cota - Admissão à Guarda (GNR)

Estamos no ano da graça, de mil novecentos e oitenta e um, (1981) mês de Março, tenho por esta altura vinte e dois anos.

Tinha terminado a dezoito de Dezembro de mil novecentos e oitenta, (1980) o serviço militar obrigatório.

Estava parado, sem nada que fazer, sem nenhuma ocupação e sem nenhum rendimento. Os dias sucediam-se uns à frente de outros e nada acontecia para alterar esta situação. Tinha necessidade precisamente do contrário, de estar ocupado, ainda hoje tenho essa necessidade, e sobretudo de ter um rendimento que me sustentasse.

Se a memória não me falha muito, creio que estávamos no meio de Março, ao cruzar-me numa das ruas da cidade de Elvas, rua de Alcamim, com uma amiga e ex-colega de escola, que já estava “assegurada”, trabalhava no registo civil de Elvas, lamentei-me desta minha inactividade e falta de perspectivas de futuro.

- Acabei a tropa no final do ano. Não sei que hei-de fazer agora.

- Porque não concorres à guarda? (GNR). Como sabes o meu pai é lá cabo, (Cabo Manteigas) vai ter com ele e diz-lhe que estivemos a falar.

Como eu mais tarde vim a aprender, um Cabo da GNR por estes anos, era um Senhor. Quero com isto dizer que em muitas localidades era a AUTORIDADE. Respeitado e obedecido por todos. Os ciganos, repito! os ciganos, sem medo das palavras, tinham um respeito incomensurável aos guardas em geral e aos Cabos em particular e na mesma medida eram por estes respeitados, o que não impedia que uma ou outra vez, se tivesse de empregar a força para fazer cumprir algum preceito legal. .

Infelizmente tal deixou de acontecer.  

Embora me tenha “dado bem” na tropa, nunca me imaginei a seguir a vida militar, pese embora, tenha recebido incentivos por parte se superiores hierárquicos, para seguir esta carreira profissional.

O “bichinho” da conversa entrou na minha cabeça, começou de imediato a fazer ninho, fazia sentido, porque não? o que é que tinha a perder? quanto muito, tinha era a ganhar.

Não dei tempo a que ele abandonasse o ninho. Dou comigo a dirigir-me ao posto da GNR que, por esta altura, estava sediado na Rua de São Lourenço em plena cidade de Elvas, a dois passos da rua de Alcamim.

Era um edifício velho, entrei, não havia ninguém no hall de entrada, subi as escadas e bati a uma porta que se encontrava semifechada, podia dizer semiaberta, mas não, o modo como eu via todas as portas eram fechadas.

Apareceu-me um guarda, disse a medo.

- Quero falar com o cabo Manteigas.

- O que é que você quer falar com o cabo Manteigas?

Hesitei, apesar de ter sido militar, acho que as minhas pernas tremiam.

O bichinho que estava na minha cabeça, falou por mim.

- É um assunto particular.

O guarda, virou-se ligeiramente de lado, sem ter saído da minha frente, gritou para a sala contígua.

- Cabo Manteigas chegue lá aqui, está aqui um fulano que quer falar consigo.

Da outra sala oiço alguém pronunciar.

- Só um momento, já vou.

Os minutos de espera, poucos, ou quase nenhuns, pareceram-me uma eternidade.

Por fim apareceu o Cabo Manteigas, pessoa que eu conhecia pessoalmente, por ter frequentado a casa dele, e ter dado “explicações” de geometria descritiva à filha e minha ex-colega de escola, que se queria apresentar a exame externo, para completar o sétimo (7º) ano do liceu, correspondente aos dias de hoje ao 11º.    

Muito afável, cumprimentou e perguntou-me.

- O que é que o traz cá?

- Estive a falar com a Graça, e ela sugeriu-me que viesse falar consigo “pra” “meter os papéis” “prá” guarda.

- Oh! Que boa ideia, é já. Espere só um pouco.

Dirigiu-se a um armário onde guardava os formulários, voltou logo depois com uma série de folhas A4.

- Sente-se aqui nesta secretária e vá preenchendo. Se tiver dúvidas pergunte.

- Obrigado.

Sentei-me e comecei a preencher as folhas, não me lembro se tive dúvidas no preenchimento, mas devo ter tido…

No final entreguei-lhe as folhas, ele verificou, e disse:

- Está tudo devidamente preenchido. Aguarde que há-de receber uma notificação, para se apresentar numa Unidade da Guarda para fazer exames de admissão.

Naquela altura, as forças policiais, tinham de informar sobre a “conduta de cidadão” não sei se era este o termo correto, mas não devia ser, já que este me ocorreu agora, mas o que se pretendia era que todo o candidato à guarda, e não só, extensível a todo o sector do estado, tinha de ter uma informação de qual era o seu comportamento na sociedade e só seriam aceites, como candidatos, os que tivessem “a folha limpa”.  

Despedi-me com um

- Muito obrigado.

Naquele tempo, não esqueçamos que estamos em 1981, não haviam “concursos públicos” para admissão ao serviço do estado.

As candidaturas à guarda estavam ininterruptamente abertas, embora as provas de admissão, escritas, médicas e físicas, obedecessem como é natural a uma calendarização.

(esta história tem seguimento)