Decidi criar este blog "Nem tanto à terra nem tanto ao mar" para iniciar o que me vai no pensamento. Não, não é engano, quero mesmo que se chame assim. Já sei que não se diz assim, mas eu digo como quero, ou não posso? Não? Mas afinal de quem é o blog? É meu, fui eu que o criei, ou foste tu? Esclarecidos? Sim? Ok! então vai chamar-se mesmo "Nem tanto à terra nem tanto ao mar" sim porque eu gosto de ser do contra, ou talvez não, a ver vamos.
domingo, 6 de agosto de 2023
Jornadas mundiais da juventude
sexta-feira, 9 de junho de 2023
Pedaços de mim - Socorrista
A foto é testemunha da satisfação do paciente
Continuando a vasculhar nos
longínquos anos de oitenta e ainda no cumprimento do serviço militar
obrigatório, no exercício da especialidade de socorrista na Casa de reclusão de
Elvas, recordo alguns “prazeres”.
Como referi anteriormente sempre
senti uma certa apetência para a área da saúde. Sentia curiosidade, para além
do gosto, sentia que tinha sensibilidade suficiente e necessária para tentar
ajudar os outros.
Não lamento, nem me arrependo dos
caminhos que a vida me levou, podiam ter sido outros, mas não foram, há que
aceitá-los e tirar o maior proveito e prazer deles. Modéstia à parte, acho que,
se o meu caminho tem sido o da saúde, daria com toda a certeza, um óptimo
enfermeiro.
Embora hajam mais de quarenta
anos que não mexa numa compressa, numa seringa e agulha, em desinfectantes etc.
para além do trivial do nosso dia-a-dia, de colocar um penso rápido, numa ou
outra ferida que façamos, apesar de todo este tempo decorrido, ainda me lembro
bem da forma correcta de limpar uma ferida, de como imobilizar correctamente um
membro, de como apertar o garrote, especialmente no pescoço, de alguns se
necessário, ahahah… de como fixar uma ligadura numa perna, sem que ela caia e
sem usar adesivos e se necessário dar uma injecção quer subcutânea quer
intravenosa.
Alguns dirão: - “gaba-te cesta
que vais à vindima”, pois que seja, o meu auto convencimento vem dos elogios
quer dos superiores hierárquicos quer dos camaradas que então prestaram serviço
comigo.
O posto de socorros/enfermaria da
Casa de Reclusão ficava no claustro interno que, servia de pátio/recreio dos
reclusos e que também dava acesso ao Tribunal Militar De Elvas.
Todos nós, em alguma situação de
maior desilusão, já dissemos que, a vida de preso é que é boa, não fazemos nada
e temos cama, comida e roupa lavada. A verdade é que nenhum de nós,
conscientemente, a quer experimentar.
Porque vivi um período da minha
vida, directamente com presos, eu não a quero para mim, nem consciente nem
inconscientemente. Os “pobres coitados” porque não tinham nada que fazer,
entretinham-se a chatear as cabeças dos socorristas, inventando doenças e
outros achaques.
Porque eu tinha uma paciência de
Job, comparada com a dos outros socorristas, era vê-los a espreitarem o momento
em que eu estava de “socorrista de dia”, para me irem pedir tudo e mais alguma
coisa. Entenda-se, este “tudo e mais alguma coisa”, eram medicamentos
ansiolíticos.
Estes medicamentos, quer fossem
orais quer fossem injectáveis, como é óbvio, só podiam ser ministrados com
prescrição médica.
Não é fácil lidar com esta
população. Em algumas ocasiões, havia fortes indícios, de alguns comportamentos
descambarem em violência.
Narrei muitos desses
comportamentos aos médicos, muitos dos que por lá passaram eram aspirantes
médicos, sendo um deles, mais permanente, o Dr Melo e Sousa.
Era o único socorrista, incluindo
o sargento enfermeiro, que tinha ordem expressa de, sempre que visse uma
situação de, “caso mal parado”, injectasse uma ampola de água destilada. Em
último recurso, se visse que a situação assim o exigia, ministrasse mesmo o
medicamento.
Mas, o meu “prazer maior” era
antes da injecção, mostrar uma agulha de seis centímetros. Uma autêntica
bisarma.
Naquela altura, haviam
especialmente dois medicamentos que eram muitos ministrados por via subcutânea.
Um era a mistura de “Ricon e
Commel”, acho que eram assim que se chamavam, ambos muito oleosos, o que a
tornava muito difícil de ministrar. O outro, à base de penicilina, que antes tínhamos
de diluir com uma ampola de água destilada, no respectivo frasco que continha o
pó. Por mais que agitássemos o frasco, era dificílimo fazermos uma diluição
eficaz, de modo a conseguir-se injectar todo o líquido de uma só vez utilizando
uma agulha mais pequena, logo mais fina. Acontecia-me, muitas vezes, ter de
espetar mais de uma agulha, para conseguir injectar todo o líquido, o que, para
além de poder provocar alguma dor no paciente, era incomodo para mim e para
ele.
Já farto, de tantas vezes ver
entrar metade do líquido, enquanto que a outra metade escorria, literalmente,
pelas nádegas, ia dizer nalgas, do paciente, decidi aventurar-me, porque
constituía um desafio, espetar a dita cuja de seis centímetros.
Então não é, que a dita cuja,
entrou até ao ”tutano”. Não, não chegou a entrar no osso, havia muita carne
antes…entrou até à parte metálica, ou seja só se via a cabeça da agulha.
Fiquei radiante. Consegui
injectar todo o líquido de uma só vez e uma só picada.
O próprio paciente também ficou
satisfeito por o ter picado apenas uma vez e não ter sentido nada.
Quando lhe mostrei a agulha, nem
queria acreditar, vi jeito de ele desmaiar. Ahahah
A partir daí passou a ser a minha
agulha preferida. Para além do prazer que me dava mostrá-la, antes de a
espetar, divertia-me imenso ver a cara deles de espanto e temor, ao ponto de
alguns, inicialmente se recusarem a que eu a espetasse.
Mas todos tinham de levar com ela…ahahah. Acabaram por
gostar e, só queriam que fosse eu a espetá-los…ahahahah
quarta-feira, 24 de maio de 2023
Pedaços de mim - Casa de Reclusão/Elvas
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| Bar/Sala - Casa de Reclusão/Elvas |
Era seu Comandante o “famoso” e conhecido Major Sá, figura
incontornável e muito discutida, por aquilo que se dizia à boca fechada, no
meio social Elvense, pela sua brutalidade,
no tratamento, quer em termos humanos quer em termos militares.
O homem tinha estado na
guerra nas ex. colónias ultramarinas. Numa dessas campanhas, se a memória não
me falha, penso que na Guiné, perdeu a visão de um dos olhos, para além de
outras mazelas, muitas delas grande também, e a mão, já não me recordo muito
bem se a direita ou esquerda, mas parece-me ainda ver o coto do antebraço
direito a terminar na parte que corresponderia à mão com uma espécie de dois
dedos.
O homem tinha cavalos
de sua propriedade particular, nas instalações/casas, pertencentes ao
aquartelamento que ficam na frente e na parte exterior. Escusado será dizer
que, este digno oficial do exército
português tinha como empregados,
os próprios militares do aquartelamento, os quais tratava a ferro e fogo.
O que era importante
para ele, não eram os militares, eram os cavalos.
Hoje seria acusado de
peculato. Nesta altura, estes vícios constituíam um “Status”, pelo que era considerado normal estas regalias e
mordomias e ninguém ousava pensar sequer,
que aquilo era um “roubo”. Senão, mais de metade, para não dizer todos, dos
oficiais das forças armada e forças militarizadas, GNR, GF, Polícia de
Segurança Pública e dirigente do funcionalismo público teriam ido cumprir penas
de prisão na “minha” Casa de
Reclusão. Mas, não! nunca lá vi nenhum! menos ainda, por “tais crimes”.
Ainda estou a ver o “carocha”
preto, transportar as refeições dele e da família, para além de o ir apanhar a
ele em casa, transportar as filhas e a esposa. Permitam-me a ousadia, as filhas
e a esposa, espanhola, para além de muito bonitas eram muito simpáticas,
especialmente a filha mais velha era, ainda deve ser, porque a beleza é inata,
linda de morrer, acho que, platonicamente, ainda cheguei a apaixonar-me, só que
era areia demais para a minha camioneta, com a agravante que nem camioneta
tinha, mas não fui o único.
Ela ao invés, ao que se
dizia, na caserna, estava apaixonada pelo gajo mais feio, gordo, figura de
barril, mas tratava dos cavalos e ajudava-a a montar... naturalmente o cavalo,
ou égua, acho que era égua. Bem que se aproveitou a passar as mãos numa tão
grande beleza.
Bom! A verdade é que ainda
hoje, infelizmente, assim continuamos. Quem
está no poder, continua com as mesmas regalias, mordomias, e alcavalas. E
nós, os pagantes, continuamos na mesma, calados que nem ratos e pior ainda,
continuamos a pensar que faz parte do “Status”.
Paga Zé!
Quando comecei este
texto, nem sequer tinha pensado, em falar do comandante e do seu “status”. Era
para falar sobre os pedaços de mim, pois então, vamos a eles.
Dada a fama de que o
comandante Sá gozava na cidade, a minha mãe quando soube que eu iria para a
Casa de Reclusão ficou apavorada. Deve ter imaginado que eu iria ser sovado
todos os dias e o fim dos meus dias estaria próximo. E não, não estou a
exagerar, os do meu tempo e mais velhos lembrar-se-ão desta figura. O homem era
temido na cidade. Não sei se ainda é vivo, mas se for, certamente concordará
comigo.
Pessoalmente, não tenho
nada que dizer do Comandante Sá, quer em termos de tratamento humano quer em
termos de tratamento militar, à parte uma historieta, que se me lembrar conto
no próximo texto.
domingo, 21 de maio de 2023
Pedaços de mim - Vida de "Pronto"
A formação da
especialidade de socorrista foi frequentada no Hospital Militar de Évora, no
final de mil novecentos e setenta e nove início de mil novecentos e oitenta, já
não sei precisar qual a sua duração. Os que foram militares do “meu tempo”
certamente se lembrarão melhor que eu.
O que vos quero contar
não tem propriamente a ver com a formação da especialidade, já que esta
decorreu normalmente e aprendi o que tinha de aprender.
Terminada a
especialidade, fui colocado da Casa de Reclusão de Elvas.
Para esta unidade
militar eram enviados os “criminosos militares” para cumprirem penas de prisão,
essencialmente composta por desertores do exército. Também havia um ou outro
militar da GNR e da ex. guarda fiscal a cumprirem penas de prisão por uma ou
outra condenação.
Tenho duas ou três
histórias que de alguma forma me “marcaram” e quando digo marcaram é
simplesmente porque me ficaram na memória por serem inusitadas e não por nenhum
outro motivo mais extraordinário.
Não sei se consigo
contá-las num único texto. Não quero que estes sejam demasiado extensos para
não vos saturar e ter quase a certeza que leem até ao fim.
Como já disse num texto
anterior, tive a sorte, continuo-o a se um “sortudo”, de ter feito a tropa na
minha cidade natal. Vantagem de Elvas ter sido uma cidade militar. Hoje é uma
sombra do seu passado histórico, mas não é por aí que quero ir, mas sim voltar
à minha história. Ah! Só mais um reparo, que isto de escrever ou falar é como
as cerejas vêm uma atrás das outras e não é por acaso, estamos mesmo na época
delas, mas a um preço astronómico, que só os pássaros as podem comer e de
borla…é a minha história e não “estória” que isto de estória faz-me lembrar
sempre o papel higiénico…mas adiante.
No primeiro mês de “pronto”
e já promovido a primeiro cabo, tinha direito a dormir, e comer no quartel,
embora quase sempre fosse dormir e comer a casa. O comer da mamã era outra
coisa.
Se a memória não me
falha muito, éramos pagos no período da recruta com trezentos escudos por mês (300$00).
Para os que eventualmente não sabem o que eram os escudos, era a moeda
portuguesas antes da adesão ao euro, o que hoje seriam um euro e meio (1,50 €),
tanto dinheiro...
Como primeiro cabo, mas
“arranchado”, este palavrão vem de
rancho e este significa comer/iguaria, logo com direito a comer e dormir, “ganhava” mil e quinhentos escudo por
mês (1500$00) ou um conto e quinhentos, hoje sete euros e meio (7,50 €).
Passados dois ou três
meses “desarranchei-me”, depois de
perceber que podia fazê-lo, obtendo com isso uma ligeira vantagem monetária e
passei a ganhar qualquer coisa como cinco mil e quinhentos escudos (5500$00), ou cinco contos e quinhentos, hoje vinte e
sete euros e meio (27,50 €), o que para a altura, um jovem sem compromisso e que
ainda-por-cima comia e dormia à conta dos papás era uma “pequena fortuna”.
Foi especialmente nesta
fase que comecei a juntar/guardar dinheiro. Sempre ouvi a minha mãe dizer que
grão a grão enche a galinha o papo. E de facto, a minha “galinha” “encheu o papo”, terminei o “tempo
obrigatório” com mais de cinquenta contos no papo.
Aos meus pais, o meu eterno
agradecimento por me terem permitido fazer este “pé de meia”.
As histórias deste
tempo virão no próximo “pedaços de mim”.
Assim espero!
domingo, 14 de maio de 2023
Pedaços de mim - Instrução Militar/Vida de Recruta (II)
A partir desta publicação, o título destas crónicas passa a chamar-se "Pedaços de mim"
No decorrer da
instrução militar, ainda durante a recruta, e de acordo com as aptidões que
cada um vinha demonstrando éramos seleccionados para mais tarde frequentarmos
as especializações, dentro da arma de infantaria.
Talvez porque o
comandante de pelotão, aspirante miliciano Prezado, era apontador de morteiro,
e porque esta especialidade requeria conhecimentos de matemática e geometria,
queria que eu fosse para esta especialidade.
Acontece que em mil
novecentos e setenta e seis, tinha eu dezassete anos, o mais novo do curso, os
outros eram já pessoas “bastante” adultas, por minha iniciativa e vontade,
frequentei durante uns meses, não sei precisar quantos, um curso de primeiros
socorros ministrado pela Cruz Vermelha Portuguesa – Centro Técnico de
Socorrismo. Curso que adorei, talvez porque, durante a frequência do mesmo,
modéstia à parte, era bastante elogiado pelos instrutores e inclusive pelos
próprios colegas, o que me motivava ainda mais a esmerar na técnica e no
conhecimento em geral.
Quando fui à inspecção
militar em Évora, “tirar as sortes”
era assim que se designava, em mil novecentos e setenta e oito, foi-nos entregue
um formulário que tínhamos de preencher, quase tipo “curriculum vitae”. Nesse
questionário/inquérito mencionei que tinha um curso de primeiros socorros. O
resultado da inspecção militar foi, naturalmente, “Apto para todo o serviço
militar”. Ou seja, a “sorte” era que
teria de ser “tropa”.
Voltemos à recruta.
Apesar de já estar “sentenciado” pelo comandante de pelotão que iria ser
apontador de morteiro, tal não veio a acontecer.
O primeiro sargento
enfermeiro Ramos? que era enfermeiro no quartel de São Paulo em Elvas, também
queria puxar a “brasa à sua sardinha” o mesmo é dizer à sua especialidade
“Socorrista”, vai daí, consulta as fichas individuais de cada um e descobre que
eu já tinha a “especialização”.
A enfermaria/posto de
socorros do quartel ficava numa das portas exteriores laterais, à porta d’armas
com acesso directo da rua.
Num dia, quando o
pelotão em marcha, passava em frente à porta, o primeiro sargento enfermeiro
dirigiu-se ao comandante de pelotão.
- Meu aspirante, só um
minuto, preciso falar consigo.
O aspirante olhou-o de
alto a baixo, imagino eu, a pensar como é que um primeiro sargento se atrevia a
interrompê-lo em plena instrução. Não deu ordem de “alto” mas dirigiu-se para
mais perto do primeiro sargento.
Soube mais tarde, nesse
mesmo dia, no fim do período da instrução que me devia dirigir ao posto de
socorros.
Fiquei atónito e com
medo, o que se passava? para ter de ir ao posto de socorros, já que eu não me
tinha queixado de nada.
Conforme a ordem
recebida dirigi-me ao posto de socorros. O primeiro sargento afável e simpático
perguntou-me
- Tem algum
conhecimento de primeiros socorros?
Eu com alguma vaidade,
respondi,
- Sim tenho, frequentei
um curso na cruz vermelha.
- Então, você é a
pessoa indicada para vir para a especialidade de socorrista.
- Acho que não, o
“nosso” aspirante já me disse que ia para apontador de morteiro.
- Deixe isso comigo,
você não quer ser socorrista na tropa?
- Não me importava.
Quem não ficou
satisfeito com esta proposta foi o aspirante, mas eu não era visto nem achado
no assunto, nada fiz, nem sabia se podia ou não fazer, para ir para uma ou
outra especialidade. Fui apanhado no meio.
Passados mais uns dias,
o primeiro sargento pede novamente que eu e mais três camaradas fossemos ao
posto de socorros.
Tinha uma surpresa para
nós. Fez dois pares, para “testar” as nossas eventuais aptidões para uma
eventual especialidade de socorrista, não se contentou com menos, cada um de
nós, teria de dar ao outro, na nádega, uma injecção subcutânea de água destilada.
O nosso pavor
reflectiu-se de imediato nas nossas faces, não sei se ficámos brancos, se
pretos, se vermelhos, mas que o pavor se via, se sentia, e se cheirava isso era
inegável. Nenhum de nós, até então, tinha mexido numa seringa e numa agulha,
menos ainda espetá-la, literalmente, no cu do outro…
Não é para me gabar,
para infortúnio meu, fui o único que espetou a agulha à primeira. O difícil foi
acertar o buraco da seringa com o buraco da agulha, tremia por tudo que era
lado, de lembrar que nenhum deste material era descartável. Houve água destilada
com fartura, a escorrer pelo rabo e pernas de cada um. Os nossos rabos viraram
“passadores” das vezes que foram espetados.
Terminada a recruta, apresentei-me no Hospital Militar de Évora para frequentar o curso na especialidade de socorrista com vista à promoção a primeiro cabo.
quarta-feira, 10 de maio de 2023
Memórias do Cota - Instrução militar/Vida de Recruta
Sou o segundo a contar da direita
Após o dia da
incorporação, no dia seguinte, cinco de Setembro de mil novecentos e setenta e
nove, pelas 07h30, depois de tomado o pequeno almoço, já o descrevi na página
anterior, teve início a instrução militar.
Pertencia ao 4º pelotão
com o número 648, a partir deste dia deixámos de ter nome e éramos chamados e
conhecidos pelos respectivos números.
Ainda tenho, mais ou
menos, relativa boa memória, mas sempre senti dificuldade em “guardar” nomes
das pessoas por muito tempo. Infelizmente, não me lembro do nome de nenhum
camarada que comigo compartilhou esta vivência. Talvez porque sempre fomos um
número… sei lá.
Ao invés, penso ainda
recordar o nome do comandante de pelotão, aspirante miliciano Prezado, natural
de Estremoz, quanto ao furriel e ao cabo, por mais voltas que dê neste “disco rígido”,
não encontro nada, apagou-se por completo, azar…ainda não havia a tal “nuvem”
que guarda tudo. Mas, tenho memória de terem sidos excelentes seres humanos,
exigiam o que tinham de exigir, naturalmente também porque exigiam deles, mas
sempre “dentro dos limites”.
A instrução militar,
como o próprio nome indica, tinha a ver com a vida de um futuro militar. Ordem
Unida, marchar muito, marchava-se em passo de corrida para tudo e para nada. Quedas
na máscara, consistia em se ir em formação de ataque, composta por uma secção,
que são duas esquadras no total de onze homens, e reforço homens, porque
naquela altura, ainda não havia mulheres no exército. Hoje serão onze militares ou onze pessoas de género indefinido? armamento, tínhamos de conhecer
as armas e o seu funcionamento, a famosa G3, e outras, desmontar, limpar e voltar a montar.
Tiro efectuado na carreira de tiro do Falcato. Será que esta carreira de tiro
ainda existe? Educação física, toda e mais alguma…legislação como o RDM –
Regulamento Disciplinar Militar e CJM - Código de justiça militar. As unidades e
regiões militares existentes, ah! naturalmente os postos (graduações) militares,
primeiros socorros, enfim uma panóplia de coisa que tinamos de saber.
Quase no final da
instrução que durava mais ou menos três meses de “vida dura” vinha a tão “desejada”
semana de campo.
Consistia esta “semana
de campo” na ida para o campo, num imaginário “teatro de guerra”. Felizmente
para todos nós a guerra nas ex. colónias ultramarinas já tinha terminado. Havia
sempre um inimigo que invadia Portugal, se a memória não me falha eram sempre
os espanhóis. Resquícios e medos do passado. Naturalmente ganhávamos sempre, ou
seja os espanhóis continuavam a ser derrotados…pudera…eles nem apareciam…uns
pelotões faziam de inimigo e outros de patriotas e assim se “brincava” às guerras.
Mas nisto somos bons,
enganarmo-nos a nós próprios e pior ainda, deixarmo-nos enganar. Acreditar que
ganhamos sempre, mas quem ganha são os outros, os que nos manipulam…no ainda
hoje “teatro político”. Podemos
continuar com manifestações, comissões de inquéritos parlamentares, demissões
ou exonerações fictícias, que tudo isto não passa por ser apenas, “uma semana de campo”. Só que neste
caso quem treina, brinca, são eles, políticos que, a cada dia estão mais
espertos.
Ainda me lembro, a
minha semana de campo foi invernosa. Choveu de dia e de noite. Andámos sempre
ensopados. Dormíamos três recrutas, numa tenda que armávamos com três panos de
tenda, tipo índio. Na “minha tenda” em vez de dormirmos três dormíamos quatro,
talvez por eu ser tão magro que não ocupava espaço… O motivo foi outro, depois
conto.
Não guardo má memória
deste lapso de tempo da minha vida, para ser sincero, “até gostei”.
segunda-feira, 24 de abril de 2023
Memórias do Cota - Incorporação no Exército
Só começamos a ter
memórias quando deixamos de olhar para o umbigo e começamos a olhar para o
rabo.
Quis fazer uma
metáfora, mas acho que não consegui, como não sou de apagar, sigo em frente, para que não hajam dúvidas,
esclareço o que pretendo dizer, começamos a ter
memórias quando deixamos de olhar para a frente e começamos a olhar para trás.
Já pertenço a esses, que olham mais para trás do que para a frente, daí
permitir-me tê-las e descrevê-las.
Não o faço por vaidade
ou por a minha vida ter sido assim tão importante...ou que seja do interesse dos
outros/colectivo, embora, naturalmente para mim, ela seja o mais importante de
tudo, por isso faço este exercício de ida ao passado, mantendo tanto quanto
possível, os neurónios activos.
Pretendo ao mesmo
tempo, que, vocês que me estão a ler, façam também este exercício. Já todos
ouvimos “muita gente” dizer, “a minha vida dava um filme”. Porque é que é só a
vida dos outros que dá um filme e a nossa não? desafio-os a criarem o vosso
filme e mostrá-lo sem medos nem pudores.
Há quem só tenha,
infelizmente, más memórias da sua passagem por esta vida. Duvido que haja
alguém que só tenha boas memórias. Eu, como penso que será a maioria, tenho más
e boas, embora me concentre nas que considero boas, mesmo que pareçam más aos
olhos de outros.
“Tive a sorte” de ter
sido incorporado no exército, na minha cidade natal, Elvas, no antigo Regimento
de Infantaria de Elvas, no pólo de São Paulo, onde hoje é a Escola Superior Agrária
do Instituto Politécnico de Portalegre, a quatro de Setembro de mil novecentos
e setenta e nove (04/09/1979), terceiro turno.
Lembro-me
perfeitamente, apresentei-me por volta das dezasseis horas, muito perto da hora
limite de apresentação que eram as dezassete horas.
Esta hora e este dia
estão marcados indelevelmente na minha memória, porque a minha mãe ainda
“bastante cedo”, fez questão de me acordar…
- Filho, levanta-te que
está na hora. Tens de te apresentares no quartel.
-
Que horas são? ainda é de noite…
- São oito da manhã,
despacha-te.
- Hummm! Ainda não está
na hora, é muito cedo, tenho o dia todo para me apresentar.
- Deves querer que te
venham buscar. Despacha-te!
Levantei-me como era
meu hábito, às oito exactas.
Engonhei o dia todo.
Foi um misto de sensações e sentimentos.
Sabia que tinha de ir e
queria ir, mas…sentia o tal arrepio na espinha o tremor na barriga, sei lá, o
medo do desconhecido, por isso, atrasei o quanto pude a hora de apresentação.
Era a primeira vez que saia de debaixo da saia da mamã. Sim, fui o “filhinho da
mamã” enquanto ela viveu, talvez por ser o “caga no ninho”. Infelizmente, só me
deu colo, literalmente, até aos vinte e oito, sentava-me muitas vezes no seu colo,
num abraço que só nós dávamos.. Que saudades…desse colo, de nos sentarmos lado
a lado e encostar a minha cabeça no seu ombro. De me sentar num banco mais
baixo e deitar a minha cabeça no seu regaço. Do seu cheiro, do seu olhar
embevecido e também às vezes de tristeza, de repreensão, mas sempre, sempre,
com o imenso amor de mãe.
Pelas quinze e trinta
saí de casa, subi a estrada de Santa Rita, atravessei o jardim municipal e
depois o jardim das laranjeiras, subi a rua da cisterna, passei à frente da
casa de reclusão e finalmente entrei na porta de armas. No percurso a pé,
demorei sensivelmente meia hora Encaminharam-me para uma sala ao cimo da
ligeira rampa onde estava a ser feita a incorporação. Distribuíram-me o
fardamento e encaminharam-me para a caserna. Pelas dezanove horas mandaram-nos
formar na pequena parada e fomos encaminhados por filas de cada um dos pelotões
para o refeitório que ficava mesmo em frente, lamentavelmente já não me lembro
o que foi o jantar, mas deve ter sido alguma feijoada com muito toucinho.… Foi
uma apresentação e incorporação normal,
não guardo nenhum episódio que me tenha “marcado”. Às vinte e duas horas tocou
ao silêncio, é um toque lindo. A partir desta hora, não podia haver luzes
acesas nem barulhos. Dormi nessa noite e durante toda a semana no quartel. Foi
a primeira vez que dormi fora de casa. Chegado o fim-de-semana, pude finalmente
regressar a casa para passar umas escassas horas. Ainda assim, fui um felizardo,
porque em pouco mais de quinze minutos, a pé, estava de novo em casa. Houve
quem tivesse pela frente, muitos quilómetros de comboio ou autocarro, o que
diminuía ainda mais o tempo de permanência em casa.
No dia seguinte pelas
sete horas tocou a alvorada, o que significava que os que não estivessem já
levantados tinham de se levantar, fazer as camas como nos tinha sido explicado
no dia anterior. A primeira formatura era a do pequeno almoço, tomado este, que
consistia numa água preta a que chamavam café, água diluída num pó branco, a
que chamavam leite em pó, mas que sabia bem, eu gostava, ainda gosto do sabor
do leite em pó, um pão com marmelada ou manteiga. Davam-nos quinze minutos para
engolirmos tudo. Para nos levantarmos da mesa tínhamos de pedir autorização ao
oficial de dia, só nos era dada, depois de todos termos terminado Findo este
tempo tínhamos de formar novamente na parada para dar início à instrução
militar.
segunda-feira, 17 de abril de 2023
Memórias do Cota - Provas de Admissão
Em Junho de 1981,
recebi uma notificação em casa, proveniente do Comando Geral da Guarda Nacional
Republicana, onde me mandavam apresentar, no mês de Julho, não sei precisar em
que dia, no antigo Regimento de Cavalaria, pegado com o antigo Batalhão 1 em Lisboa,
para fazer as provas de selecção/admissão à Guarda Nacional Republicana. As
provas consistiam numa prova cultural escrita de conhecimento geral,
matemática/aritmética, essencialmente contas nas quatro operações, divisão, multiplicação, subtracção e adição e respectivas provas reais e prova dos nove. Penso que também tinham um ou dois problemas. Português, texto com interpretação, uma redacção e um ditado. Devido ao sotaque de cada um, do instrutor "ditador", por vezes, tornava-se difícil perceber determinadas palavras, ainda por cima, palavras, muitas delas que nunca tínhamos ouvido antes, por isso mesmo, os erros ortográficos eram mais que muitos. Acho que só podíamos dar no máximo três erros e cinco falhas de acentos, se ultrapassássemos esta "bitola" estávamos eliminados. De lembrar que a escolaridade obrigatória era a 4ª classe. Já não tenho a certeza se também houve uma prova de história
de Portugal.
Estas provas eram as
primeiras e eram eliminatórias, o resultado sabia-se no mesmo dia passada uma
hora por aí, só quem passasse nelas passava à prova seguinte que era o exame
médico, também ele eliminatório.
Cheguei a pensar que os
médicos e os oficiais que faziam parte do júri, me iriam “chumbar” , porque os ouvi comentar que eu era “muito magro”, isto
seria “bullying” nos dias de hoje. Eu estava nos antípodas do perfil físico do “guarda tipo”, que por estes tempos, um
guarda, para ser “guarda republicano” tinha de ser barrigudo, atarracado, sem
pescoço, a parecer-se mais com um barril, e tinha de ter um farto bigode, de
preferência a fazer caracol enrolado para cima. Ora eu, era magro, muito magro
na opinião de alguns, modéstia à parte, elegante, imberbe, sem corpo e
sobretudo sem “cara para levar uma chapada”, como ia pôr ou impor ordem ou
respeito na população?
Não são só os gordos
que são atacados de bullying, mas adiante, devem ter visto mais alguma coisa,
para além da minha “magreza”, ah! devo fazer aqui uma ressalva, eu era de facto
magro, ainda hoje de certa forma sou, mas não era nem sou cadavérico, ahahah
embora tenha uma foto com dezasseis anos, em calções de banho, que só se veem
ossos, costelas especialmente…ahahah, depois de alguma discussão lá resolveram
passar-me à prova seguinte, que seria a prova física, que consistia numa
corrida de no mínimo de dois mil e quatrocentos metros (2400 m) no tempo máximo
de doze minutos. Cem metros em oito segundos, cinco elevações na barra, não sei
quantos abdominais, umas flexões de pernas, salto em comprimento de dois metros
a pés juntos, sem impulso e já não me lembro se também, o salto de uma vala e
um muro. As provas físicas se a memória não me falha decorreram em Monsanto.
Isto de estarmos a escrever passados tantos anos, tem disto…a memória, deixa de
ser memória e passa um pouco a ficção…
Como não me pesava a
gordura, transportar os ossos e a pele foi fácil…
Cada uma das provas
físicas eram também eliminatórias. Ou seja, à medida que íamos fazendo provas,
sabíamos se estávamos eliminados ou não.
No final do bloco das
três provas, cultural, médicas e físicas estávamos reduzidos a menos de metade.
Passada uma hora ou
pouco mais e já tomado o respectivo banho, os que tínhamos chegado ao fim,
fomos reunidos numa sala, onde foi anunciado se todos tínhamos passado ou não.
De imediato, fomos
conduzidos para uma outra sala, para escolhermos as unidade/subunidades onde
queríamos frequentar o alistamento.
O alistamento era o que
é hoje o Curso de Formação de Praças, ministrado em cerca de cinco meses e
decorria a na zona norte, Porto, zona centro, Coimbra, zona de Lisboa, Zona
Sul, área do batalhão 3 – Évora. Nesta zona em concreto que era a que me
interessava, decorria em Portalegre, em Reguengos de Monsaraz, em Beja e em
Lagos.
Sendo eu natural de
Elvas e residindo nesta bela cidade, naturalmente, escolhi a cidade de
Portalegre para frequentar o alistamento, por ser a que ficava mais perto.
Escolhido o local de
frequência do alistamento, logo me disseram que o mesmo teria início no dia
três de agosto de mil novecentos e oitenta e um, data em que me deveria
apresentar no Comando da Companhia Territorial de Portalegre.
(esta história tem
seguimento)
sexta-feira, 7 de abril de 2023
Memórias do Cota - Admissão à Guarda (GNR)
Estamos no ano da
graça, de mil novecentos e oitenta e um, (1981) mês de Março, tenho por esta
altura vinte e dois anos.
Tinha terminado a
dezoito de Dezembro de mil novecentos e oitenta, (1980) o serviço militar
obrigatório.
Estava parado, sem nada
que fazer, sem nenhuma ocupação e sem nenhum rendimento. Os dias sucediam-se
uns à frente de outros e nada acontecia para alterar esta situação. Tinha
necessidade precisamente do contrário, de estar ocupado, ainda hoje tenho essa
necessidade, e sobretudo de ter um rendimento que me sustentasse.
Se a memória não me
falha muito, creio que estávamos no meio de Março, ao cruzar-me numa das ruas
da cidade de Elvas, rua de Alcamim, com uma amiga e ex-colega de escola, que já
estava “assegurada”, trabalhava no registo civil de Elvas, lamentei-me desta
minha inactividade e falta de perspectivas de futuro.
- Acabei a tropa no
final do ano. Não sei que hei-de fazer agora.
- Porque não concorres
à guarda? (GNR). Como sabes o meu pai é lá cabo, (Cabo Manteigas) vai ter com ele
e diz-lhe que estivemos a falar.
Como eu mais tarde vim
a aprender, um Cabo da GNR por estes anos, era um Senhor. Quero com isto dizer
que em muitas localidades era a AUTORIDADE. Respeitado e obedecido por todos.
Os ciganos, repito! os ciganos, sem medo das palavras, tinham um respeito
incomensurável aos guardas em geral e aos Cabos em particular e na mesma medida
eram por estes respeitados, o que não impedia que uma ou outra vez, se tivesse
de empregar a força para fazer cumprir algum preceito legal. .
Infelizmente tal deixou
de acontecer.
Embora me tenha “dado
bem” na tropa, nunca me imaginei a seguir a vida militar, pese embora, tenha
recebido incentivos por parte se superiores hierárquicos, para seguir esta
carreira profissional.
O “bichinho” da
conversa entrou na minha cabeça, começou de imediato a fazer ninho, fazia
sentido, porque não? o que é que tinha a perder? quanto muito, tinha era a
ganhar.
Não dei tempo a que ele
abandonasse o ninho. Dou comigo a dirigir-me ao posto da GNR que, por esta
altura, estava sediado na Rua de São Lourenço em plena cidade de Elvas, a dois
passos da rua de Alcamim.
Era um edifício velho,
entrei, não havia ninguém no hall de entrada, subi as escadas e bati a uma
porta que se encontrava semifechada, podia dizer semiaberta, mas não, o modo
como eu via todas as portas eram fechadas.
Apareceu-me um guarda, disse
a medo.
- Quero falar com o
cabo Manteigas.
- O que é que você quer
falar com o cabo Manteigas?
Hesitei, apesar de ter
sido militar, acho que as minhas pernas tremiam.
O bichinho que estava
na minha cabeça, falou por mim.
- É um assunto
particular.
O guarda, virou-se
ligeiramente de lado, sem ter saído da minha frente, gritou para a sala
contígua.
- Cabo Manteigas chegue
lá aqui, está aqui um fulano que quer falar consigo.
Da outra sala oiço
alguém pronunciar.
- Só um momento, já
vou.
Os minutos de espera,
poucos, ou quase nenhuns, pareceram-me uma eternidade.
Por fim apareceu o Cabo
Manteigas, pessoa que eu conhecia pessoalmente, por ter frequentado a casa
dele, e ter dado “explicações” de geometria descritiva à filha e minha
ex-colega de escola, que se queria apresentar a exame externo, para completar o
sétimo (7º) ano do liceu, correspondente aos dias de hoje ao 11º.
Muito afável,
cumprimentou e perguntou-me.
- O que é que o traz
cá?
- Estive a falar com a
Graça, e ela sugeriu-me que viesse falar consigo “pra” “meter os papéis” “prá”
guarda.
- Oh! Que boa ideia, é
já. Espere só um pouco.
Dirigiu-se a um armário
onde guardava os formulários, voltou logo depois com uma série de folhas A4.
- Sente-se aqui nesta
secretária e vá preenchendo. Se tiver dúvidas pergunte.
- Obrigado.
Sentei-me e comecei a
preencher as folhas, não me lembro se tive dúvidas no preenchimento, mas devo
ter tido…
No final entreguei-lhe
as folhas, ele verificou, e disse:
- Está tudo devidamente
preenchido. Aguarde que há-de receber uma notificação, para se apresentar numa
Unidade da Guarda para fazer exames de admissão.
Naquela altura, as
forças policiais, tinham de informar sobre a “conduta de cidadão” não sei se
era este o termo correto, mas não devia ser, já que este me ocorreu agora, mas
o que se pretendia era que todo o candidato à guarda, e não só, extensível a
todo o sector do estado, tinha de ter uma informação de qual era o seu
comportamento na sociedade e só seriam aceites, como candidatos, os que
tivessem “a folha limpa”.
Despedi-me com um
- Muito obrigado.
Naquele tempo, não
esqueçamos que estamos em 1981, não haviam “concursos públicos” para admissão
ao serviço do estado.
As candidaturas à
guarda estavam ininterruptamente abertas, embora as provas de admissão,
escritas, médicas e físicas, obedecessem como é natural a uma calendarização.
(esta história tem
seguimento)
quinta-feira, 6 de abril de 2023
Gostos não se discutem?
Estive para passar por
entre os “pingos da chuva” o mesmo é dizer, ficar em “casa” ou seja em silêncio
e tentar não me molhar, mas, a vontade de sair é grande e como quem anda à
chuva, molha-se, eu não vou sair daqui enxuto.
Nestes últimos dias tem
sido polémica uma publicação/crónica de um tal Alexandre Pais, onde ele aprecia
o aspecto físico de Maria Botelho Moniz e especialmente os braços da Cristina
Ferreira. Fetiche por braços? Vá-se lá saber…
Esta publicação gerou
uma onda de apoio às visadas e uma onda de contestação ao signatário da crónica.
Até aqui, tudo normal, penso eu, já que, “gostos não se discutem”.
Antes de mais, quero
dizer que no “meu gosto”, acho lindíssimas quaisquer das visadas, e nenhuma
delas está “desproporcionada” o que não quer dizer que não possam haver “arranjos”.
Estamos a viver uma
época em que não se pode olhar, não se pode tocar, não se pode pensar, não se
pode dizer, especialmente se esse pensar e dizer forem contra a corrente “Woke”.
A Maria Botelho Moniz,
teve honras de entrevista, na empresa onde trabalha, no programa Goucha, para
além do programa que apresenta os 2 às 10. Até aqui tudo bem, o Goucha
escolhe/entrevista quem quer, mas pergunto eu, não seria de “bom tom” também já
ter convidado o cronista?
Há uns tempos, se a
memória não me falha, até saiu um decreto-lei a proibir os “piropos”, onde já
se viu?
Sempre houve e
continuará a haver enquanto o mundo for mundo, homens e mulheres gordas,
baixas(os), feias(os), magras(os), altas(os), bonitas(os), se continuar com
estas descrição não vou terminar tão depressa…
Quer os “Wokes” queiram
ou não, um(a) gordo(a) é um(a) “bucha”, ponto final. Um magro(a) é um(a) “lingrinhas”,
um “pau de virar tripas”, uma pessoa alta é “uma girafa”. Também aqui não
terminaria.
Se eu fizer uma
apreciação ao aspecto físico de uma pessoa e disser – és linda! Sendo ou não,
não tem problema, porque estou a elogiar a pessoa. Uma treta! Se a pessoa não é
linda, eu não estou a elogiar coisa nenhuma, estarei até a desrespeitá-la ou “gozá-la”,
mas pronto, a moda “woke” assim exige.
Se eu disser – estás gorda!
Tens de fazer dieta, fazer mais exercício físico, etc, já estou a ofender a
pessoa. Mas que raio, a pessoa não tem espelhos em casa? Compreendo e aceito que
a pessoa até se sinta bem na “sua pele” é um direito que eu lhe reconheço, mas
por que carga de água, eu não posso fazer a minha apreciação e dizê-la
frontalmente e com sinceridade?
O mesmo se põe no
aspecto intelectual. Se eu digo – és inteligente, sendo ou não, não há problema.
Se eu digo és burro que nem uma porta, cai o santo e a trindade.
A opinião dos outros só tem a importância que nós lhe dermos.
Só há polémica porque
as revistas e os órgão de comunicação social querem vender e cingir-nos à sua
ideia.
Vão mas é pastar
caracóis.
Se há pessoas que não
suportam a crítica, nunca vão modificar, nunca vão melhorar. Se não conseguem
sós, peçam ajuda especializada.
Reconheçam e vejam o lado
positivo da crítica. Ao contrário do que a maioria imagina e defende, a crítica,
não é para deitar abaixo, antes pelo
contrário, é para elevar e fazer melhorar a pessoa.
Toda a vida fui chamado
de lingrinhas e de pau de virar tripas e nunca me senti ofendido nem diminuído
por isso. Era uma constatação. Tinha, ainda tenho consciência que sou magro,
embora hoje já pese um pouco mais, mas isso é da velhice…
Ah! E o corpo fica mole
sim. Fica flácido, os braços caiem, a pele do pescoço fica um “desastre”,
Ah! já me esquecia, o
pau nem sempre levanta…ahahhaah .
Deixem-se de tretas!









