segunda-feira, 24 de abril de 2023

Memórias do Cota - Incorporação no Exército

Só começamos a ter memórias quando deixamos de olhar para o umbigo e começamos a olhar para o rabo.

Quis fazer uma metáfora, mas acho que não consegui, como não sou de apagar, sigo em frente, para que não hajam dúvidas, esclareço o que pretendo dizer, começamos a ter memórias quando deixamos de olhar para a frente e começamos a olhar para trás. Já pertenço a esses, que olham mais para trás do que para a frente, daí permitir-me tê-las e descrevê-las.

Não o faço por vaidade ou por a minha vida ter sido assim tão importante...ou que seja do interesse dos outros/colectivo, embora, naturalmente para mim, ela seja o mais importante de tudo, por isso faço este exercício de ida ao passado, mantendo tanto quanto possível, os neurónios activos.

Pretendo ao mesmo tempo, que, vocês que me estão a ler, façam também este exercício. Já todos ouvimos “muita gente” dizer, “a minha vida dava um filme”. Porque é que é só a vida dos outros que dá um filme e a nossa não? desafio-os a criarem o vosso filme e mostrá-lo sem medos nem pudores.

Há quem só tenha, infelizmente, más memórias da sua passagem por esta vida. Duvido que haja alguém que só tenha boas memórias. Eu, como penso que será a maioria, tenho más e boas, embora me concentre nas que considero boas, mesmo que pareçam más aos olhos de outros.   

“Tive a sorte” de ter sido incorporado no exército, na minha cidade natal, Elvas, no antigo Regimento de Infantaria de Elvas, no pólo de São Paulo, onde hoje é a Escola Superior Agrária do Instituto Politécnico de Portalegre, a quatro de Setembro de mil novecentos e setenta e nove (04/09/1979), terceiro turno.

Lembro-me perfeitamente, apresentei-me por volta das dezasseis horas, muito perto da hora limite de apresentação que eram as dezassete horas.

Esta hora e este dia estão marcados indelevelmente na minha memória, porque a minha mãe ainda “bastante cedo”, fez questão de me acordar…

- Filho, levanta-te que está na hora. Tens de te apresentares no quartel.

- Que horas são? ainda é de noite…                                       

- São oito da manhã, despacha-te.

- Hummm! Ainda não está na hora, é muito cedo, tenho o dia todo para me apresentar.

- Deves querer que te venham buscar. Despacha-te!

Levantei-me como era meu hábito, às oito exactas.

Engonhei o dia todo. Foi um misto de sensações e sentimentos.

Sabia que tinha de ir e queria ir, mas…sentia o tal arrepio na espinha o tremor na barriga, sei lá, o medo do desconhecido, por isso, atrasei o quanto pude a hora de apresentação. Era a primeira vez que saia de debaixo da saia da mamã. Sim, fui o “filhinho da mamã” enquanto ela viveu, talvez por ser o “caga no ninho”. Infelizmente, só me deu colo, literalmente, até aos vinte e oito, sentava-me muitas vezes no seu colo, num abraço que só nós dávamos.. Que saudades…desse colo, de nos sentarmos lado a lado e encostar a minha cabeça no seu ombro. De me sentar num banco mais baixo e deitar a minha cabeça no seu regaço. Do seu cheiro, do seu olhar embevecido e também às vezes de tristeza, de repreensão, mas sempre, sempre, com o imenso amor de mãe.

Pelas quinze e trinta saí de casa, subi a estrada de Santa Rita, atravessei o jardim municipal e depois o jardim das laranjeiras, subi a rua da cisterna, passei à frente da casa de reclusão e finalmente entrei na porta de armas. No percurso a pé, demorei sensivelmente meia hora Encaminharam-me para uma sala ao cimo da ligeira rampa onde estava a ser feita a incorporação. Distribuíram-me o fardamento e encaminharam-me para a caserna. Pelas dezanove horas mandaram-nos formar na pequena parada e fomos encaminhados por filas de cada um dos pelotões para o refeitório que ficava mesmo em frente, lamentavelmente já não me lembro o que foi o jantar, mas deve ter sido alguma feijoada com muito toucinho.… Foi uma apresentação e incorporação  normal, não guardo nenhum episódio que me tenha “marcado”. Às vinte e duas horas tocou ao silêncio, é um toque lindo. A partir desta hora, não podia haver luzes acesas nem barulhos. Dormi nessa noite e durante toda a semana no quartel. Foi a primeira vez que dormi fora de casa. Chegado o fim-de-semana, pude finalmente regressar a casa para passar umas escassas horas. Ainda assim, fui um felizardo, porque em pouco mais de quinze minutos, a pé, estava de novo em casa. Houve quem tivesse pela frente, muitos quilómetros de comboio ou autocarro, o que diminuía ainda mais o tempo de permanência em casa.

No dia seguinte pelas sete horas tocou a alvorada, o que significava que os que não estivessem já levantados tinham de se levantar, fazer as camas como nos tinha sido explicado no dia anterior. A primeira formatura era a do pequeno almoço, tomado este, que consistia numa água preta a que chamavam café, água diluída num pó branco, a que chamavam leite em pó, mas que sabia bem, eu gostava, ainda gosto do sabor do leite em pó, um pão com marmelada ou manteiga. Davam-nos quinze minutos para engolirmos tudo. Para nos levantarmos da mesa tínhamos de pedir autorização ao oficial de dia, só nos era dada, depois de todos termos terminado Findo este tempo tínhamos de formar novamente na parada para dar início à instrução militar.

 

segunda-feira, 17 de abril de 2023

Memórias do Cota - Provas de Admissão

Em Junho de 1981, recebi uma notificação em casa, proveniente do Comando Geral da Guarda Nacional Republicana, onde me mandavam apresentar, no mês de Julho, não sei precisar em que dia, no antigo Regimento de Cavalaria, pegado com o antigo Batalhão 1 em Lisboa, para fazer as provas de selecção/admissão à Guarda Nacional Republicana. As provas consistiam numa prova cultural escrita de conhecimento geral, matemática/aritmética, essencialmente contas nas quatro operações, divisão, multiplicação, subtracção e adição   e respectivas provas reais e prova dos nove. Penso que também tinham um ou dois problemas. Português, texto com  interpretação, uma redacção e um ditado. Devido ao sotaque de cada um, do instrutor "ditador", por vezes, tornava-se difícil perceber determinadas palavras, ainda por cima, palavras, muitas delas que nunca tínhamos ouvido antes, por isso mesmo, os erros ortográficos eram mais que muitos. Acho que só podíamos dar no máximo três erros e cinco falhas de acentos, se ultrapassássemos esta "bitola" estávamos eliminados. De lembrar que a escolaridade obrigatória era a 4ª classe. Já não tenho a certeza se também houve uma prova de história de Portugal.

Estas provas eram as primeiras e eram eliminatórias, o resultado sabia-se no mesmo dia passada uma hora por aí, só quem passasse nelas passava à prova seguinte que era o exame médico, também ele eliminatório.

Cheguei a pensar que os médicos e os oficiais que faziam parte do júri, me iriam “chumbar” , porque os ouvi comentar que eu era “muito magro”, isto seria “bullying” nos dias de hoje. Eu estava nos antípodas do perfil físico do “guarda tipo”, que por estes tempos, um guarda, para ser “guarda republicano” tinha de ser barrigudo, atarracado, sem pescoço, a parecer-se mais com um barril, e tinha de ter um farto bigode, de preferência a fazer caracol enrolado para cima. Ora eu, era magro, muito magro na opinião de alguns, modéstia à parte, elegante, imberbe, sem corpo e sobretudo sem “cara para levar uma chapada”, como ia pôr ou impor ordem ou respeito na população?   

Não são só os gordos que são atacados de bullying, mas adiante, devem ter visto mais alguma coisa, para além da minha “magreza”, ah! devo fazer aqui uma ressalva, eu era de facto magro, ainda hoje de certa forma sou, mas não era nem sou cadavérico, ahahah embora tenha uma foto com dezasseis anos, em calções de banho, que só se veem ossos, costelas especialmente…ahahah, depois de alguma discussão lá resolveram passar-me à prova seguinte, que seria a prova física, que consistia numa corrida de no mínimo de dois mil e quatrocentos metros (2400 m) no tempo máximo de doze minutos. Cem metros em oito segundos, cinco elevações na barra, não sei quantos abdominais, umas flexões de pernas, salto em comprimento de dois metros a pés juntos, sem impulso e já não me lembro se também, o salto de uma vala e um muro. As provas físicas se a memória não me falha decorreram em Monsanto. Isto de estarmos a escrever passados tantos anos, tem disto…a memória, deixa de ser memória e passa um pouco a ficção…    

Como não me pesava a gordura, transportar os ossos e a pele foi fácil…

Cada uma das provas físicas eram também eliminatórias. Ou seja, à medida que íamos fazendo provas, sabíamos se estávamos eliminados ou não.

No final do bloco das três provas, cultural, médicas e físicas estávamos reduzidos a menos de metade.

Passada uma hora ou pouco mais e já tomado o respectivo banho, os que tínhamos chegado ao fim, fomos reunidos numa sala, onde foi anunciado se todos tínhamos passado ou não.

De imediato, fomos conduzidos para uma outra sala, para escolhermos as unidade/subunidades onde queríamos frequentar o alistamento.

O alistamento era o que é hoje o Curso de Formação de Praças, ministrado em cerca de cinco meses e decorria a na zona norte, Porto, zona centro, Coimbra, zona de Lisboa, Zona Sul, área do batalhão 3 – Évora. Nesta zona em concreto que era a que me interessava, decorria em Portalegre, em Reguengos de Monsaraz, em Beja e em Lagos.

Sendo eu natural de Elvas e residindo nesta bela cidade, naturalmente, escolhi a cidade de Portalegre para frequentar o alistamento, por ser a que ficava mais perto.

Escolhido o local de frequência do alistamento, logo me disseram que o mesmo teria início no dia três de agosto de mil novecentos e oitenta e um, data em que me deveria apresentar no Comando da Companhia Territorial de Portalegre.  

(esta história tem seguimento)

 

sexta-feira, 7 de abril de 2023

Memórias do Cota - Admissão à Guarda (GNR)

Estamos no ano da graça, de mil novecentos e oitenta e um, (1981) mês de Março, tenho por esta altura vinte e dois anos.

Tinha terminado a dezoito de Dezembro de mil novecentos e oitenta, (1980) o serviço militar obrigatório.

Estava parado, sem nada que fazer, sem nenhuma ocupação e sem nenhum rendimento. Os dias sucediam-se uns à frente de outros e nada acontecia para alterar esta situação. Tinha necessidade precisamente do contrário, de estar ocupado, ainda hoje tenho essa necessidade, e sobretudo de ter um rendimento que me sustentasse.

Se a memória não me falha muito, creio que estávamos no meio de Março, ao cruzar-me numa das ruas da cidade de Elvas, rua de Alcamim, com uma amiga e ex-colega de escola, que já estava “assegurada”, trabalhava no registo civil de Elvas, lamentei-me desta minha inactividade e falta de perspectivas de futuro.

- Acabei a tropa no final do ano. Não sei que hei-de fazer agora.

- Porque não concorres à guarda? (GNR). Como sabes o meu pai é lá cabo, (Cabo Manteigas) vai ter com ele e diz-lhe que estivemos a falar.

Como eu mais tarde vim a aprender, um Cabo da GNR por estes anos, era um Senhor. Quero com isto dizer que em muitas localidades era a AUTORIDADE. Respeitado e obedecido por todos. Os ciganos, repito! os ciganos, sem medo das palavras, tinham um respeito incomensurável aos guardas em geral e aos Cabos em particular e na mesma medida eram por estes respeitados, o que não impedia que uma ou outra vez, se tivesse de empregar a força para fazer cumprir algum preceito legal. .

Infelizmente tal deixou de acontecer.  

Embora me tenha “dado bem” na tropa, nunca me imaginei a seguir a vida militar, pese embora, tenha recebido incentivos por parte se superiores hierárquicos, para seguir esta carreira profissional.

O “bichinho” da conversa entrou na minha cabeça, começou de imediato a fazer ninho, fazia sentido, porque não? o que é que tinha a perder? quanto muito, tinha era a ganhar.

Não dei tempo a que ele abandonasse o ninho. Dou comigo a dirigir-me ao posto da GNR que, por esta altura, estava sediado na Rua de São Lourenço em plena cidade de Elvas, a dois passos da rua de Alcamim.

Era um edifício velho, entrei, não havia ninguém no hall de entrada, subi as escadas e bati a uma porta que se encontrava semifechada, podia dizer semiaberta, mas não, o modo como eu via todas as portas eram fechadas.

Apareceu-me um guarda, disse a medo.

- Quero falar com o cabo Manteigas.

- O que é que você quer falar com o cabo Manteigas?

Hesitei, apesar de ter sido militar, acho que as minhas pernas tremiam.

O bichinho que estava na minha cabeça, falou por mim.

- É um assunto particular.

O guarda, virou-se ligeiramente de lado, sem ter saído da minha frente, gritou para a sala contígua.

- Cabo Manteigas chegue lá aqui, está aqui um fulano que quer falar consigo.

Da outra sala oiço alguém pronunciar.

- Só um momento, já vou.

Os minutos de espera, poucos, ou quase nenhuns, pareceram-me uma eternidade.

Por fim apareceu o Cabo Manteigas, pessoa que eu conhecia pessoalmente, por ter frequentado a casa dele, e ter dado “explicações” de geometria descritiva à filha e minha ex-colega de escola, que se queria apresentar a exame externo, para completar o sétimo (7º) ano do liceu, correspondente aos dias de hoje ao 11º.    

Muito afável, cumprimentou e perguntou-me.

- O que é que o traz cá?

- Estive a falar com a Graça, e ela sugeriu-me que viesse falar consigo “pra” “meter os papéis” “prá” guarda.

- Oh! Que boa ideia, é já. Espere só um pouco.

Dirigiu-se a um armário onde guardava os formulários, voltou logo depois com uma série de folhas A4.

- Sente-se aqui nesta secretária e vá preenchendo. Se tiver dúvidas pergunte.

- Obrigado.

Sentei-me e comecei a preencher as folhas, não me lembro se tive dúvidas no preenchimento, mas devo ter tido…

No final entreguei-lhe as folhas, ele verificou, e disse:

- Está tudo devidamente preenchido. Aguarde que há-de receber uma notificação, para se apresentar numa Unidade da Guarda para fazer exames de admissão.

Naquela altura, as forças policiais, tinham de informar sobre a “conduta de cidadão” não sei se era este o termo correto, mas não devia ser, já que este me ocorreu agora, mas o que se pretendia era que todo o candidato à guarda, e não só, extensível a todo o sector do estado, tinha de ter uma informação de qual era o seu comportamento na sociedade e só seriam aceites, como candidatos, os que tivessem “a folha limpa”.  

Despedi-me com um

- Muito obrigado.

Naquele tempo, não esqueçamos que estamos em 1981, não haviam “concursos públicos” para admissão ao serviço do estado.

As candidaturas à guarda estavam ininterruptamente abertas, embora as provas de admissão, escritas, médicas e físicas, obedecessem como é natural a uma calendarização.

(esta história tem seguimento)    

 

 

quinta-feira, 6 de abril de 2023

Gostos não se discutem?

Estive para passar por entre os “pingos da chuva” o mesmo é dizer, ficar em “casa” ou seja em silêncio e tentar não me molhar, mas, a vontade de sair é grande e como quem anda à chuva, molha-se, eu não vou sair daqui enxuto.

Nestes últimos dias tem sido polémica uma publicação/crónica de um tal Alexandre Pais, onde ele aprecia o aspecto físico de Maria Botelho Moniz e especialmente os braços da Cristina Ferreira. Fetiche por braços? Vá-se lá saber…

Esta publicação gerou uma onda de apoio às visadas e uma onda de contestação ao signatário da crónica. Até aqui, tudo normal, penso eu, já que, “gostos não se discutem”.

Antes de mais, quero dizer que no “meu gosto”, acho lindíssimas quaisquer das visadas, e nenhuma delas está “desproporcionada” o que não quer dizer que não possam haver “arranjos”.

Estamos a viver uma época em que não se pode olhar, não se pode tocar, não se pode pensar, não se pode dizer, especialmente se esse pensar e dizer forem contra a corrente “Woke”.

A Maria Botelho Moniz, teve honras de entrevista, na empresa onde trabalha, no programa Goucha, para além do programa que apresenta os 2 às 10. Até aqui tudo bem, o Goucha escolhe/entrevista quem quer, mas pergunto eu, não seria de “bom tom” também já ter convidado o cronista?

Há uns tempos, se a memória não me falha, até saiu um decreto-lei a proibir os “piropos”, onde já se viu?

Sempre houve e continuará a haver enquanto o mundo for mundo, homens e mulheres gordas, baixas(os), feias(os), magras(os), altas(os), bonitas(os), se continuar com estas descrição não vou terminar tão depressa…

Quer os “Wokes” queiram ou não, um(a) gordo(a) é um(a) “bucha”, ponto final. Um magro(a) é um(a) “lingrinhas”, um “pau de virar tripas”, uma pessoa alta é “uma girafa”. Também aqui não terminaria.

Se eu fizer uma apreciação ao aspecto físico de uma pessoa e disser – és linda! Sendo ou não, não tem problema, porque estou a elogiar a pessoa. Uma treta! Se a pessoa não é linda, eu não estou a elogiar coisa nenhuma, estarei até a desrespeitá-la ou “gozá-la”, mas pronto, a moda “woke” assim exige.

Se eu disser – estás gorda! Tens de fazer dieta, fazer mais exercício físico, etc, já estou a ofender a pessoa. Mas que raio, a pessoa não tem espelhos em casa? Compreendo e aceito que a pessoa até se sinta bem na “sua pele” é um direito que eu lhe reconheço, mas por que carga de água, eu não posso fazer a minha apreciação e dizê-la frontalmente e com sinceridade?  

O mesmo se põe no aspecto intelectual. Se eu digo – és inteligente, sendo ou não, não há problema. Se eu digo és burro que nem uma porta, cai o santo e a trindade.

A opinião dos outros só tem a importância que nós lhe dermos.

Só há polémica porque as revistas e os órgão de comunicação social querem vender e cingir-nos à sua ideia.  

Vão mas é pastar caracóis.

Se há pessoas que não suportam a crítica, nunca vão modificar, nunca vão melhorar. Se não conseguem sós, peçam ajuda especializada.

Reconheçam e vejam o lado positivo da crítica. Ao contrário do que a maioria imagina e defende, a crítica, não é para deitar abaixo, antes pelo contrário, é para elevar e fazer melhorar a pessoa.    

Toda a vida fui chamado de lingrinhas e de pau de virar tripas e nunca me senti ofendido nem diminuído por isso. Era uma constatação. Tinha, ainda tenho consciência que sou magro, embora hoje já pese um pouco mais, mas isso é da velhice…

Ah! E o corpo fica mole sim. Fica flácido, os braços caiem, a pele do pescoço fica um “desastre”,

Ah! já me esquecia, o pau nem sempre levanta…ahahhaah .  

Deixem-se de tretas!

 

terça-feira, 28 de março de 2023

O Foco Cega-nos

foto público.pt

"Em terra de cegos, quem tem um olho é rei" 

A saga do NRP Mondego da marinha portuguesa continua.

Quando da “insubordinação” dos treze militares, tive a oportunidade de nestas páginas, à semelhança de outros, nas suas, militares ou não, de dar a minha opinião sobre o acontecimento.  

Para uns, há/houve insubordinação e indisciplina por parte dos treze militares, para outros, um “acto heróico”. Situo-me mais nesta posição, embora possa admitir, eventualmente, alguma infracção disciplinar e criminal.

Mas, não me cabe a mim, como não cabe a nenhum dos “opinadores”, avaliar se há/houve estas infracções. Essa competência pertence aos tribunais e à estrutura de comando da marinha. Aos presumíveis infractores e aos seus advogados cabes-lhes proceder à sua defesa. O certo é que os recursos hierárquicos, dentro da estrutura, dos processos disciplinares, estão feridos antes de nascerem, o mesmo é dizer, nascem mortos, quando as entidades de recurso e neste caso, o Chefe do Estado Maior da Armada, já proferiu publicamente a sua decisão, mesmo antes de se ter dado inicio aos respectivos processos. Caberá apenas, o recurso ao tribunal administrativo, para que se profira JUSTIÇA.

No entanto, à semelhança do que outros já expressaram e concretamente os advogados dos “infractores” não posso deixar de realçar que a atitude/comportamento do Chefe do Estado Maior da Marinha não foi de todo isenta, de ter havido também, para além de eventuais crimes, eventuais infracções disciplinares. Todo o militar sabe que um superior hierárquico não pode punir um inferior na presença de subordinados seus. O que o Sr Almirante Gouveia e Melo fez, por mais que depois o negue, foi no mínimo uma repreensão agravada em público e na presença de subordinados dos infractores. Hoje, direi mesmo, enquanto proferia a “repreensão agravada” o Sr Almirante Gouveia e Melo tem/teve a consciência que, estaria a cometer ele próprio uma infracção, só que, a ânsia que o foco incida sobre ele “cega-o”.        

A comunicação social e a maioria dos “opinadores”, centraram o seu foco nas eventuais infracções dos treze militares, como se estas infracções fossem inéditas nas forças armadas e nas forças policiais, lamento desiludi-los, mas não são inéditas, Em muitos casos, como será o deste, felizmente que não são.

Preferi incidir o foco, e continuo a preferir, em salientar a coragem, destes trezes militares, sabendo os riscos e eventuais consequências que corriam, em expor situações que em nada dignificam as forças armadas e neste caso particular a marinha portuguesa.

Tiveram a coragem de denunciarem situações, que cabiam aos comandantes e mais concretamente ao comandante da embarcação, mas que este, por falta de coragem não o fez. Talvez porque, ao que dizem, é preciso coragem, eu diria, “tomates”, para enfrentarem e contradizer o “todo poderoso” almirante Gouveia e Melo.

À data de hoje (28/03/2023) sabemos que o NRP Mondego não completou “a missão” de substituição de pessoal nas ilhas desertas, tendo sido rebocado de regresso à Madeira, mesmo depois de algumas reparações de emergência, para dar “ares” de que estaria em condições de navegabilidade aquando da “insurreição”.

Na marinha, e em especial o Chefe do Estado Maior da Armada, pode tapar o sol com a peneira de que nunca mandariam o navio para uma “missão impossível”, fica claro que os trezes “revoltosos” tinham mais que razão.

Hoje estamos a falar da marinha, mas, podemos perguntar como está a "sucata" nos outros ramos da forças armada? 

Não, não vou falar nos "Leopard 2". 

São estas as forças armadas que o país quer? 

Já sei que "muitos", não querem militares, afinal para que servem? só para dispêndio,  que pelo que se vê, não tem sido assim tanto, dado o estado calamitoso em que se encontram as forças armadas. Os "muitos" não foram assim tantos, foram os que detinham o poder suficiente, para quase acabarem com eles. Só que, como diz o povo, em altura de trovoada, lembram-se de Santa Bárbara.

Perante esta incapacidade de cumprimento de missão, por inoperacionalidade do NRP Mondego o que nos tem a dizer o Comandante do navio e o Chefe do Estado Maior da Armada?

O Sr almirante Gouveia e Melo, neste momento, deve estar sem chão…AFUNDOU-SE nas suas próprias palavras.

Em situações “análogas” a comunicação social, os “opinadores” e o governo, por esta altura, já teriam “decepado” a cabeça do Sr Almirante Gouveia e Melo. Veja-se o caso da TAP, não hesitaram em fazer rolar as cabeças dos CEO(s).

Sempre que há situações que de forma directa e indirecta, envolvem o governo e o estado, não se ouve uma palavra do Sr primeiro ministro. Este, para além de cego, fica surdo e mudo. É o deixa andar que, logo, logo, todos esquecem…

Nestas circunstâncias, o Sr almirante Gouveia e melo, não deveria ou deverá já ter posto o lugar à disposição? O que o faz continuar?

Será que o foco numa hipotética candidatura à presidência da república lhe tira a visão?

O actual presidente da república já lançou a “candidatura” de quatro eventuais interessados, porque ainda não lançou a candidatura do Sr. Gouveia e Melo? Quando já é conhecido o interesse deste nesse cargo. Será que não confia nele, tanto quanto diz?

Aguardemos os próximos episódios.          

 

quinta-feira, 16 de março de 2023

E "Bota Abaixo"

Foto dnoticias.pt

Como militar que fui, sou, embora já afastado à cerca de treze anos, xiiiii! Como o tempo passa…não posso deixar de manifestar o meu “sentimento” sobre o “acontecimento” do NRP Mondego da Marinha Portuguesa.

A história, conhecemo-la, por ter sido amplamente divulgada na comunicação social do “Reino”, perdão da república. Resume-se essencialmente à “insubordinação por desobediência” de quatro SARGENTOS e nove PRAÇAS, as maiúsculas não são por lapso nem por acaso.

Sargentos e Praças que dão o corpo “às balas”. Já que os comandantes, não souberam ou quiseram dar o “murro na mesa”, fizeram-no eles. O meu respeito a estes homens.

Infelizmente vão ser “cravejados”, têm de servir de exemplo que, na marinha, não há insubordinados nem “usurpadores de funções”.  

Esta insubordinação por desobediência, deve-se, nos argumentos dos insubordinados, entre outros, aos factos de:

- O NRP Mondego apresentar limitações técnicas graves que comprometem a segurança do pessoal e do material e o compromisso da respectiva missão;

- Em formatura na ponte, o próprio comandante, assumiu perante a guarnição que não se sentia confortável em largar com as condições técnicas que o navio apresenta;

- As previsões meteorológicas apontavam para ondulação de 2,5mt a 3mt, com período de 7 segundos;  

- O navio possui dois (2) motores estando um (1) deles, o de Bombordo, INOP. Este motor necessita de uma manutenção W4 há cerca de 2000 horas de funcionamento;

- O motor de Estibordo com fugas diversas, em tudo idênticas às fugas identificadas no motor de Bombordo, com consumo de óleo. Este motor necessita de uma manutenção W4 há cerca de 2000 horas de funcionamento;

Duas mil horas correspondem a oitenta e três dias de funcionamento como eles dizem, mas certamente representam muitíssimos mais dias. Ou seja, neste lapso de tempo o que é que o comandante, as minúsculas não são lapso nem erro, fez para resolver este problema e salvaguardar as vidas dos tripulantes, inclusive a sua? 

O que é que o Sr Almirante Gouveia e Melo fez? Não tinha conhecimento destas anomalias? E nos outros equipamentos da marinha?

O que é que o governo fez? Não tem conhecimento do estado em que se encontram as Forças Armadas? Ou melhor dito, serão Forças Desarmadas?

Naturalmente isto é apenas uma gota de água num imenso oceano.

Quase aposto que, o Sr Almirante Gouveia e Melo estava “deserto” que algo acontecesse na “sua” marinha, para aparecer de novo na “ribalta nacional” e assim fazer que não se esqueçam d’ele. Afinal o homem tem de estar sempre na ribalta se quer ser presidente da república, não vão outros ultrapassá-lo, como ele, eventualmente, fez com outros do seu ramo, tendo inclusive, mandando o seu antecessor embora antes de ter terminado a missão para que fora nomeado. Fazer frente e exigências ao governo, nunca!

A ser verdade, e não me custa mesmo nada em acreditar que seja, que o comandante assumiu em formatura perante a guarnição que não se “sentia confortável” em largar, porque LARGOU ao infortúnio, de um processo disciplinar e criminal trezes militares seus?

Se é verdade que o comandante falou perante a guarnição, "não me sinto confortável", será que os restantes militares têm a coragem de confirmar em inquérito tais palavras. Não me parece...teriam de ser homens...

As razões estão bem de ver “falta de tomates” e carreirísmo, agora cada um que se desenrasque é o que a “tropa” manda fazer…

O que menos importa aqui não é o crime de insubordinação, embora seja por este e outros que eles vão pagar. O que importa é o dislate de terem metido a “boca no trombone”, ainda por cima, não sendo músicos…

Como pessoa, desde criança, ensinaram-.me e aprendi que, “Quem quer ser respeitado, tem de se dar ao respeito”. Como militar apenas vim a reforçar este aprendizado, tendo-o praticado sempre. Sempre respeitei e sempre fui respeitado. Bom, quase sempre, infelizmente na fase final da minha carreira, e no topo desta, senti que não fui respeitado.

Tinha como adquirido, sendo “garantia” que palavra de Comandante era “escritura” “assinada” e “autenticada”. Infelizmente nem todos os Comandantes, hoje para mim, comandantes assim o entendem.

Há comandantes pequenos.

Há comandantes políticos no ativo.

Passei por uma experiência, que ainda hoje, já passaram dezasseis anos, ainda me é “traumatizante” pela falta de caracter, honradez e assunção de palavra dada de um comandante.

Uma história entre muitas que poderia contar e que talvez um dia escreva nas minhas “memórias”.  

 

terça-feira, 24 de janeiro de 2023

A violência

Há uns dias atrás, a 19/01/2023, foi notícia a invasão do palco do teatro São Luiz em Lisboa por uma “atriz” travesti “Keyla Brasil” onde se representava a peça “Tudo sobre a minha mãe”.

Cada um tem direito a ter as suas opiniões e manifestá-las como entender. Não tem é o direito de estragar a “cena” do outro/a e invadir o espaço e local de trabalho daqueles que o fazem com amor.

Pelas imagens que vi na televisão a “cena” na invasão do palco, foi grotesca e deplorável. A mim feriu-me os olhos e os ouvidos.

Mas, o que a mim me preocupa, embora “condene” naturalmente, não é propriamente a cena da invasão do palco, é o facto de o encenador/produtor da companhia “Teatro do Vão” ter assumido a “falha” e ter substituído, no imediato, o actor André Patrício.

Qual “falha”? a personagem “Lola” estava a ser mal representada?

- Não, não é isso, é que a Lola não estava a ser representada por um/a “trans” ou travesti

- Ah! Ok, então todas e quaisquer personagens de uma qualquer peça de teatro, cinema ou televisão têm de ser representadas por “originais”. É isso?

- Pois! Se calhar sim.

- Ah, Ok! Então já estou a ver, que numa próxima peça sobre políticos, estes vão ser representados por ladrões, mentirosos e corruptos. Já estou a imaginar um político, por exemplo, ministros das infraestruturas, da agricultura, da defesa, ou um presidente de câmara a invadir o palco D. Maria e exigir substituir o actor que representa o papel. Quero ver qual é o primeiro político a dar o passo em frente, já que tantos defendem estes desideratos sociais. Esta peça não vou perder, nem que para isso me tenha que deslocar propositadamente a Lisboa.   

Fico perplexo:

-  como é que um profissional, encenador/produtor, se deixa intimidar desta maneira;

- como é que uma dita “acriz” trans ou o que for, se sente em condições de substituir um actor que ensaiou o papel por algum tempo;

Como é que o restante elenco aceitou de “bom grado” esta substituição.

Esta é a opinião de uma “cambada” de seguidores. Hoje somos todos “seguidores” uns dos outros, especialmente nas redes sociais…Há os que se julgam influenciadores, “influencer(s)”, para ser mais chique, e a cambada de ovelhas que acham, já que não pensam, que tudo o que estes “influencer(s)” fazem ou dizem é que está na moda e mais perigoso ainda, está correto.

Fico preocupado que, numa época em que nos dizemos “livres”, libertos, nos sintamos mais prisioneiros do que no tempo da “Outra Senhora”.

Hoje, é pior do que no tempo da outra senhora, não se pode pensar fora da “caixa” muito menos ainda, agir ou manifestar-se, contra os conceitos dos inúmeros lóbis que hoje infestam a sociedade.

Tudo o que possas pensar e manifestar de alguma forma, vai cair no:

- racismo;

- xenofobismo;

- pragmatismo;

- assédio.

Ai daqueles que ousem manifestarem-se, por pensamentos, palavras ou obras, contra o “Status Quo” instalado.

Irra que é demais.

Eu, como diz a canção “cantarei” até que a voz me doa.      

 

sexta-feira, 13 de janeiro de 2023

Eu sou do tempo de...


Foto Digital Luso
 Não é de agora. Este mal, infelizmente, já vem de  alguns anos. Ao ouvirem-se e lerem-se determinadas notícias, a minha memória transporta-me ao “tempo de…”

Hoje, é lido na comunicação social que um homem bêbado arranca o nariz à dentada de um militar da GNR em Beja e agride mais dois.

Seria um caso de “NOTÍCIA” se fosse um “caso” inédito. Infelizmente, assim não é. São casos que se repetem com demasiada frequência, logo, não deviam constituir notícia.

Não é de estranhar que os polícias/GNR sejam agredidos com esta frequência, quando uma “fulana”, porque outro nome não tem, mas para os mais curiosos ou menos acompanhantes destes casos, sempre direi que, no seu cartão de cidadão, consta o nome de Inês Pedrosa, se dá ao desplante de, num órgão de comunicação social pago por todos nós, na RTP 3, afirmar, passo a citar, “um polícia tem de saber que ser agredido faz parte da profissão”.

Não! Sra “fulana”, os polícias não têm de saber que ser agredido faz parte da profissão. Porque a profissão, não é ser agredido, é garantir precisamente o contrário que não hajam agressões.

Sinto pena que a Sra “fulana” incida o foco, no é legítimo, o uso da violência e da agressão contra os polícias.

Mas, tenho a certeza que a Sra “fulana” não pensa o mesmo, se o polícia usar de violência e agressão, contra o cidadão comum, mesmo que esse cidadão, seja um criminoso.

São os tempos que correm.  

Não vi reacções públicas por parte dos órgãos de estado, particularmente do “comentador oficial do estado”, que tudo comenta, insurgir-se contra estas opiniões que incitam à violência contra os polícias.

Mas, não perderam tempo em comentar e insurgirem-se quanto às opiniões manifestadas, há poucas semanas atrás, por um punhado de polícias e GNR(s) nuns grupos privado e fechado das redes sociais.   

Aqui D’el Rei!, como se os polícias e os GNR não fossem cidadãos com direito a ter opiniões e expressar os seus sentimentos e o que sentem na pele.

Confessem. Ficaram com medo que os polícias começassem aos tiros a tudo que mexesse…e bem que mereciam. Porque sou cidadão em plenos uso dos meus direitos e deveres, à semelhança da Sra “fulana” atrás mencionada, e outros iguais, tenho o direito constitucional, a pensar e a escrever, que uma bala, bem direccionada, não seria bala perdida.

UFF! Desabafei, é que me estava aqui atravessado, e não me deixava engolir.    

Sou do tempo de, quando ainda havia respeito, repito, respeito, pelos polícias, pelos GNR(s), pelos militares, pelos médicos, pelos enfermeiros, pelos professores, pelos magistrados, numa palavra pelos servidores públicos.

Quando entrei para a GNR, já lá vão quase quarenta e dois anos, era hábito, que associações recreativas, por não terem disponibilidades financeiras, para contratarem os chamados “serviços gratificados”, a fim de garantirem a segurança dos espaços privados, pedirem emprestados aos comandantes dos postos locais da GNR o famoso “decalitro” e o capote de Guarda. Estas peças de fardamento eram penduradas num cabide bem visível, à entrada dos recintos.

Esta “artimanha” fazia acreditar que a GNR estava no local, desincentivando, por respeito à autoridade, quaisquer tentativas de conflito.  

Outros tempos. O tempo da ética, dos valores e da moral.

Hoje a violência e a corrupção expande-se por toda a sociedade, imperando nos titulares do governo/estado, quase fazendo-nos acreditar que ser corrupto é o comportamento acertado sendo impune.

Estes mesmos titulares do governo, têm o descaramento de nos virem dizer que estes comportamentos, podem não serem ilegais, porque cumpriram a lei.

Qual lei? A que eles mesmos fizeram para poderem abotoar-se com o que não lhes pertence.

Temos como ciente que a lei é o topo que “rege” os nossos comportamentos.

Por isso se cumpriu a lei está “TOP”.

Naturalmente, estão “TOP”, porque nunca tiveram noção do que é a ética, dos que são os valores do que é a moral.

Acima da lei estão estas noções:

- Ética;

- Valores;

- Princípios;

- E, a moral.   

A violência e a agressão aos servidores públicos, é uma agressão ao estado e o estado somos todos nós.    

O estado que se permite estes comportamentos, é um estado falido, sem ética, sem valores, sem princípios, sem moral.

É um estado indigno.

sábado, 17 de dezembro de 2022

Desfiando memórias

 

Elvas, cidade que me viu nascer e onde fui criado até aos vinte e três anos, altura em que “emigrei”, embora internamente, para dar início à minha vida profissional que abracei por mais de trinta anos.

Em vinte e três anos criam-se inúmeras memórias, felizmente todas boas. Sinceramente, fiz um esforço de memória, nessa mesma memória, e não encontrei uma que pudesse classificar de má memória.

Sorte a minha, dirão uns. Certamente devo ter tido não sorte, mas muita sorte. Sempre fui agradecido à vida e continuo a sê-lo. Ela devolve-nos sempre, muito mais do que aquilo que lhe damos e eu tenho recebido muito.

Mas, não é sobre o que tenho dado e recebido que quero falar.

Vou falar/contar uma dessas muito boas memórias.

Nasci e fui criado numa casa ínfima, mas onde sempre cabia mais um e éramos muitos, muitos mesmo, especialmente por alturas do Natal.

A minha mãe adorava ter a casa cheia e como não cabíamos todos dentro, ocupávamos o quintal. Era uma cozinheira de “mão cheia” e os seus cozinhados eram apreciados por todos e por isso, quando se falava em Natal a “escolha” recaia sempre na casa da Josefa.

O dia e a noite de consoada eram passados no quintal à volta de um grande lume, com grandes troncos de azinho que o meu cunhado Carlos se encarregava de trazer previamente. A mim, cabia-me acender a fogueira e estender um toldo a fazer de tecto, para evitar a cacimba e a geada que nesta época era muita.   

Antes destes dias, e porque também havia um canavial no ribeiro próximo da casa, também me cabia ir apanhar umas canas, o mais finas e resistentes possível, para se fazerem as roncas. Havia roncas para toda a gente, e se não havia manilhas de barro e peles ou papos de perú suficientes, faziam-se roncas com latas voltadas ao contrário ou seja o fundo da lata servia de “pele” e “roncavam” ui se roncavam…

Não havia trocas de presentes, estes eram só para os mais novos da família, uma “lembrancinha”. Eu, e penso que os meus sobrinhos de então, por sermos os mais novos, não guardamos na memória nenhuma lembrancinha, mas tenho a certeza que eles, como eu, guardamos as maiores lembranças destes tempos vividos em família.

Passaram-se muitos Natais assim, harmoniosos e felizes.

Por nos últimos anos de vida da minha mãe já não haver condições para estas reuniões familiares na sua casa, passou-se a comemorar em casa da Rita, a minha irmã mais velha.

Depois, bom depois… em maio 1987, dá-se o maior desgosto da minha vida até hoje.

Aquela que reunia e congregava toda a família e amigos deixa-nos órfãos.

Nesse ano, ainda nos reunimos em casa da minha irmã Rita. Mas, para mim, já não era o mesmo Natal.

Deixei de “comemorar” natais.

Entretanto casei, tive filhos e os Natais são passados em minha casa com pouca gente.

Os meus filhos não sabem o que é “cantar ao menino” à volta de uma enorme fogueira.

Os meus filhos não sabem o que é percorrer as ruas da cidade de Elvas, pela madrugada fora, na noite de 24 de dezembro a cantar ao menino e a bater às portas.

Tenho saudade, muitas saudades desse tempo…sinais de velhice por ventura, e sinto muita pena, alguns remorsos, e talvez alguma culpa de não ter criado nos meus filhos as memórias que os meus pais criaram em mim.
Sejam felizes 

segunda-feira, 12 de dezembro de 2022

O abreviar da vida versus O acelerar da morte

 

Uma vez mais, estamos a ser confrontados com a aprovação na assembleia da república da “lei da eutanásia”.

Constituição da República Portuguesa

 Artigo 24.º – Direito à vida

1 - A vida humana é inviolável.

2 - Em caso algum haverá pena de morte. 

Não sendo jurista ou formado em leis, parece-me claro que, antes de haver quaisquer discussões e aprovações no parlamento sobre a eutanásia, deveria proceder-se à revisão constitucional de entre outros, este artigo em concreto, sob pena de qualquer legislação sobre este assunto, à semelhança de muita outra vir a ser “inconstitucional”, mas para isso, temos os “experts”, na assembleia da república, a serem pagos a peso de ouro.

Preferem, à semelhança de muitas outras, começar a “casa pelo telhado” em vez de, primeiro, lançarem os alicerces.

O presidente da república já vetou por duas vezes esta mesma lei, será que vai haver uma terceira? Não faço prognósticos, mas quase que aposto que desta é que vai…já diz o povo “à terceira é de vez”…

Cada um terá o seu argumento, quer seja religioso, e este talvez o mais forte, político, humanista, o que for, para defender ou não a prática da eutanásia.  

Mas, o que é isto da eutanásia? Eutanásia consiste na conduta de abreviar a vida de um paciente em estado terminal ou que esteja sujeito a dores e intoleráveis sofrimentos físicos ou psíquicos. https://www.significados.com.br/eutanasia/ 

Etimologicamente, este termo se originou a partir do grego eu + thanatos, que pode ser traduzido como “boa morte” ou “morte sem dor”.

Ainda,

A eutanásia é a acção ou omissão que acelera a morte de um paciente condenado com o intuito de evitar e prolongar o seu sofrimento. O conceito está associado à morte sem sofrimento físico. https://conceito.de/eutanasia

Historiadores apontam que a eutanásia é um tema bem antigo, já discutido entre os filósofos gregos Platão e Sócrates, de maneira que os povos primitivos já a praticavam no caso de doenças incuráveis, por exemplo, os celtas, os indianos, dentre outros.

Postos estes conceitos, podemos dizer ou concluir de uma forma resumida e simplista que a eutanásia não é mais que, o “abreviar a vida” ou o “acelerar a morte” para evitar o sofrimento quer físico quer psíquico.

É claro que, quando se pensa no “abreviar a vida” ou no “acelerar a morte” há gostos para todos, quer dizer, há os que defendem e os que atacam. Para já, e neste momento, para que não restem dúvidas a quem quer que seja, quero deixar declarado que sou a favor do abreviar da minha vida ou seja, no acelerar da minha morte, se chegado esse momento.

O que esta lei põe em discussão, é se cada um de nós, em caso de sofrimento atroz, quer físico quer psíquico e esgotadas à luz da ciência actual, todas as possibilidades de melhoria e qualidade de vida, tem ou não, em consciência, o direito de livremente pedir que abreviem a sua vida ou acelerem a sua morte.

Ah! sim, tem os cuidados paliativos, esta deve ser a aposta….bla…bla…bla…eu cago nos serviços paliativos, se chegado o momento, isso significar continuar a sofrer, física, emocional ou psiquicamente. Quero ter o direito de pedir que me abreviem a vida e se eu não o conseguir exprimir de uma forma perceptível quero deixar essa opção às pessoas que me querem bem e que sabem que eu nunca aceitarei viver nessas condições.

Se todos temos garantida a morte, com esta possibilidade de opção, eu não estou a escolher a morte, estou a abreviar a vida. É tão simples quanto isso.

E depois, para os mais crentes, e que têm a promessa e a convicção da chegada ao paraíso e à vida eterna, não sentem ansiedade de chegarem o mais breve possível? E desfrutar de todo esse REINO.

A hipocrisia dos moralistas políticos e de alguns seres “humanos” é tão grande e repugnante que, com a capa de cristãos e católicos apostólicos romanos, rejeitaram e votaram contra esta lei, mas não se envergonham de defender a castração química, a prisão perpétua, quando sabem que cientificamente estas soluções não evitam que os mesmos abusadores/criminosos continuem a abusar. Se nós lhes dermos palco, tempo e votos brevemente irão defender a pena de morte, porque para este já é possível, são escória, não são seres humanos.

A mim repugna-me muito mais, a aprovação de uma lei de inseminação pós morte, do que esta que, como se diz atrás, mais não é que o abreviar da vida, mediante determinadas circunstâncias.

Não, esta lei não é um salvo conduto para o homicídio, não deve, nem tem de ser.

Não é o “assassinato” dos velhinhos.  

Não pensem que esta minha defesa, pelo abreviar da vida ou acelerar a morte, que, a acontecer, são opções e decisões fáceis, não, não são. São bem difíceis, mas, para que se torne mais fácil é preciso pensar nela e saber que essa opção existe.

Actualmente existem três países onde a eutanásia é legal.

Holanda desde abril de 2002;

A Bélgica no mesmo ano, incluive desde 2014 com a eutanásia a menores

Luxemburgo 2009

Na Suiça, país erradamente associado à eutanásia, a prática é punível com prisão.

O que a lei Suíça permite desde 1940 é o suicídio assistido. 

Para terminar,

que este texto já vai longo e não costumo escrever tanto, porque sei que poucos ou quase ninguém o lê até ao fim,

Termino por hoje,

Tenho muita vontade de viver neste “paraíso” terreno que é o que conheço, com qualidade de vida, sem sofrimento físico nem psíquico nem emocional, com a convicção que, “antes dos cem ninguém me leva, nem morto” e como eu gosto de acrescentar nem “Lá” o de cima me leva.