quarta-feira, 24 de maio de 2023

Pedaços de mim - Casa de Reclusão/Elvas

Bar/Sala - Casa de Reclusão/Elvas

 Como já antes disse, depois de   terminar a recruta e ter   frequentado  a especialização de   Socorrista foi-me proposto   escolher entre o Regimento de   Infantaria e a Casa de Reclusão   com a preferência que me queriam   no Regimento de Infantaria. Não   sei porquê, talvez porque, já naquele tempo era um bocadinho do contra, decidi escolher a Casa de Reclusão, daí a minha colocação nesta Unidade Militar.

Era seu Comandante o “famoso” e conhecido Major Sá, figura incontornável e muito discutida, por aquilo que se dizia à boca fechada, no meio social Elvense, pela sua brutalidade, no tratamento, quer em termos humanos quer em termos militares.

O homem tinha estado na guerra nas ex. colónias ultramarinas. Numa dessas campanhas, se a memória não me falha, penso que na Guiné, perdeu a visão de um dos olhos, para além de outras mazelas, muitas delas grande também, e a mão, já não me recordo muito bem se a direita ou esquerda, mas parece-me ainda ver o coto do antebraço direito a terminar na parte que corresponderia à mão com uma espécie de dois dedos.   

O homem tinha cavalos de sua propriedade particular, nas instalações/casas, pertencentes ao aquartelamento que ficam na frente e na parte exterior. Escusado será dizer que, este digno oficial do exército português tinha como empregados, os próprios militares do aquartelamento, os quais tratava a ferro e fogo.

O que era importante para ele, não eram os militares, eram os cavalos.

Hoje seria acusado de peculato. Nesta altura, estes vícios constituíam um “Status”, pelo que era considerado normal estas regalias e mordomias e ninguém ousava pensar sequer, que aquilo era um “roubo”. Senão, mais de metade, para não dizer todos, dos oficiais das forças armada e forças militarizadas, GNR, GF, Polícia de Segurança Pública e dirigente do funcionalismo público teriam ido cumprir penas de prisão na “minha” Casa de Reclusão. Mas, não! nunca lá vi nenhum! menos ainda, por “tais crimes”.

Ainda estou a ver o “carocha” preto, transportar as refeições dele e da família, para além de o ir apanhar a ele em casa, transportar as filhas e a esposa. Permitam-me a ousadia, as filhas e a esposa, espanhola, para além de muito bonitas eram muito simpáticas, especialmente a filha mais velha era, ainda deve ser, porque a beleza é inata, linda de morrer, acho que, platonicamente, ainda cheguei a apaixonar-me, só que era areia demais para a minha camioneta, com a agravante que nem camioneta tinha, mas não fui o único.

Ela ao invés, ao que se dizia, na caserna, estava apaixonada pelo gajo mais feio, gordo, figura de barril, mas tratava dos cavalos e ajudava-a a montar... naturalmente o cavalo, ou égua, acho que era égua. Bem que se aproveitou a passar as mãos numa tão grande beleza.    

Bom! A verdade é que ainda hoje, infelizmente, assim continuamos. Quem está no poder, continua com as mesmas regalias, mordomias, e alcavalas. E nós, os pagantes, continuamos na mesma, calados que nem ratos e pior ainda, continuamos a pensar que faz parte do “Status”.

Paga Zé!  

Quando comecei este texto, nem sequer tinha pensado, em falar do comandante e do seu “status”. Era para falar sobre os pedaços de mim, pois então, vamos a eles.

Dada a fama de que o comandante Sá gozava na cidade, a minha mãe quando soube que eu iria para a Casa de Reclusão ficou apavorada. Deve ter imaginado que eu iria ser sovado todos os dias e o fim dos meus dias estaria próximo. E não, não estou a exagerar, os do meu tempo e mais velhos lembrar-se-ão desta figura. O homem era temido na cidade. Não sei se ainda é vivo, mas se for, certamente concordará comigo. 

Pessoalmente, não tenho nada que dizer do Comandante Sá, quer em termos de tratamento humano quer em termos de tratamento militar, à parte uma historieta, que se me lembrar conto no próximo texto. 

 

domingo, 21 de maio de 2023

Pedaços de mim - Vida de "Pronto"

 

A formação da especialidade de socorrista foi frequentada no Hospital Militar de Évora, no final de mil novecentos e setenta e nove início de mil novecentos e oitenta, já não sei precisar qual a sua duração. Os que foram militares do “meu tempo” certamente se lembrarão melhor que eu.

O que vos quero contar não tem propriamente a ver com a formação da especialidade, já que esta decorreu normalmente e aprendi o que tinha de aprender.

Terminada a especialidade, fui colocado da Casa de Reclusão de Elvas.

Para esta unidade militar eram enviados os “criminosos militares” para cumprirem penas de prisão, essencialmente composta por desertores do exército. Também havia um ou outro militar da GNR e da ex. guarda fiscal a cumprirem penas de prisão por uma ou outra condenação.

Tenho duas ou três histórias que de alguma forma me “marcaram” e quando digo marcaram é simplesmente porque me ficaram na memória por serem inusitadas e não por nenhum outro motivo mais extraordinário.

Não sei se consigo contá-las num único texto. Não quero que estes sejam demasiado extensos para não vos saturar e ter quase a certeza que leem até ao fim.

Como já disse num texto anterior, tive a sorte, continuo-o a se um “sortudo”, de ter feito a tropa na minha cidade natal. Vantagem de Elvas ter sido uma cidade militar. Hoje é uma sombra do seu passado histórico, mas não é por aí que quero ir, mas sim voltar à minha história. Ah! Só mais um reparo, que isto de escrever ou falar é como as cerejas vêm uma atrás das outras e não é por acaso, estamos mesmo na época delas, mas a um preço astronómico, que só os pássaros as podem comer e de borla…é a minha história e não “estória” que isto de estória faz-me lembrar sempre o papel higiénico…mas adiante.

No primeiro mês de “pronto” e já promovido a primeiro cabo, tinha direito a dormir, e comer no quartel, embora quase sempre fosse dormir e comer a casa. O comer da mamã era outra coisa.

Se a memória não me falha muito, éramos pagos no período da recruta com trezentos escudos por mês (300$00). Para os que eventualmente não sabem o que eram os escudos, era a moeda portuguesas antes da adesão ao euro, o que hoje seriam um euro e meio (1,50 €), tanto dinheiro...

Como primeiro cabo, mas “arranchado”, este palavrão vem de rancho e este significa comer/iguaria, logo com direito a comer e dormir, “ganhava” mil e quinhentos escudo por mês (1500$00) ou um conto e quinhentos, hoje sete euros e meio (7,50 €).

Passados dois ou três meses “desarranchei-me”, depois de perceber que podia fazê-lo, obtendo com isso uma ligeira vantagem monetária e passei a ganhar qualquer coisa como cinco mil e quinhentos escudos (5500$00),  ou cinco contos e quinhentos, hoje vinte e sete euros e meio (27,50 €), o que para a altura, um jovem sem compromisso e que ainda-por-cima comia e dormia à conta dos papás era uma “pequena fortuna”.

Foi especialmente nesta fase que comecei a juntar/guardar dinheiro. Sempre ouvi a minha mãe dizer que grão a grão enche a galinha o papo. E de facto, a minha “galinha” “encheu o papo”, terminei o “tempo obrigatório” com mais de cinquenta contos no papo.

Aos meus pais, o meu eterno agradecimento por me terem permitido fazer este “pé de meia”.

As histórias deste tempo virão no próximo “pedaços de mim”.     

Assim espero!


domingo, 14 de maio de 2023

Pedaços de mim - Instrução Militar/Vida de Recruta (II)

A partir desta publicação, o título destas crónicas passa a chamar-se "Pedaços de mim" 

No decorrer da instrução militar, ainda durante a recruta, e de acordo com as aptidões que cada um vinha demonstrando éramos seleccionados para mais tarde frequentarmos as especializações, dentro da arma de infantaria.

Talvez porque o comandante de pelotão, aspirante miliciano Prezado, era apontador de morteiro, e porque esta especialidade requeria conhecimentos de matemática e geometria, queria que eu fosse para esta especialidade.

Acontece que em mil novecentos e setenta e seis, tinha eu dezassete anos, o mais novo do curso, os outros eram já pessoas “bastante” adultas, por minha iniciativa e vontade, frequentei durante uns meses, não sei precisar quantos, um curso de primeiros socorros ministrado pela Cruz Vermelha Portuguesa – Centro Técnico de Socorrismo. Curso que adorei, talvez porque, durante a frequência do mesmo, modéstia à parte, era bastante elogiado pelos instrutores e inclusive pelos próprios colegas, o que me motivava ainda mais a esmerar na técnica e no conhecimento em geral.  

Quando fui à inspecção militar em Évora, “tirar as sortes” era assim que se designava, em mil novecentos e setenta e oito, foi-nos entregue um formulário que tínhamos de preencher, quase tipo “curriculum vitae”. Nesse questionário/inquérito mencionei que tinha um curso de primeiros socorros. O resultado da inspecção militar foi, naturalmente, “Apto para todo o serviço militar”. Ou seja, a “sorte” era que teria de ser “tropa”.

Voltemos à recruta. Apesar de já estar “sentenciado” pelo comandante de pelotão que iria ser apontador de morteiro, tal não veio a acontecer.

O primeiro sargento enfermeiro Ramos? que era enfermeiro no quartel de São Paulo em Elvas, também queria puxar a “brasa à sua sardinha” o mesmo é dizer à sua especialidade “Socorrista”, vai daí, consulta as fichas individuais de cada um e descobre que eu já tinha a “especialização”.

A enfermaria/posto de socorros do quartel ficava numa das portas exteriores laterais, à porta d’armas com acesso directo da rua.

Num dia, quando o pelotão em marcha, passava em frente à porta, o primeiro sargento enfermeiro dirigiu-se ao comandante de pelotão.

- Meu aspirante, só um minuto, preciso falar consigo.

O aspirante olhou-o de alto a baixo, imagino eu, a pensar como é que um primeiro sargento se atrevia a interrompê-lo em plena instrução. Não deu ordem de “alto” mas dirigiu-se para mais perto do primeiro sargento.

Soube mais tarde, nesse mesmo dia, no fim do período da instrução que me devia dirigir ao posto de socorros.

Fiquei atónito e com medo, o que se passava? para ter de ir ao posto de socorros, já que eu não me tinha queixado de nada.

Conforme a ordem recebida dirigi-me ao posto de socorros. O primeiro sargento afável e simpático perguntou-me

- Tem algum conhecimento de primeiros socorros?

Eu com alguma vaidade, respondi,

- Sim tenho, frequentei um curso na cruz vermelha.

- Então, você é a pessoa indicada para vir para a especialidade de socorrista.

- Acho que não, o “nosso” aspirante já me disse que ia para apontador de morteiro.

- Deixe isso comigo, você não quer ser socorrista na tropa?

- Não me importava.

Quem não ficou satisfeito com esta proposta foi o aspirante, mas eu não era visto nem achado no assunto, nada fiz, nem sabia se podia ou não fazer, para ir para uma ou outra especialidade. Fui apanhado no meio.

Passados mais uns dias, o primeiro sargento pede novamente que eu e mais três camaradas fossemos ao posto de socorros.  

Tinha uma surpresa para nós. Fez dois pares, para “testar” as nossas eventuais aptidões para uma eventual especialidade de socorrista, não se contentou com menos, cada um de nós, teria de dar ao outro, na nádega, uma injecção subcutânea de água destilada.  

O nosso pavor reflectiu-se de imediato nas nossas faces, não sei se ficámos brancos, se pretos, se vermelhos, mas que o pavor se via, se sentia, e se cheirava isso era inegável. Nenhum de nós, até então, tinha mexido numa seringa e numa agulha, menos ainda espetá-la, literalmente, no cu do outro…

Não é para me gabar, para infortúnio meu, fui o único que espetou a agulha à primeira. O difícil foi acertar o buraco da seringa com o buraco da agulha, tremia por tudo que era lado, de lembrar que nenhum deste material era descartável. Houve água destilada com fartura, a escorrer pelo rabo e pernas de cada um. Os nossos rabos viraram “passadores” das vezes que foram espetados.

Terminada a recruta, apresentei-me no Hospital Militar de Évora para frequentar o curso na especialidade de socorrista com vista à promoção a primeiro cabo.   


 Antes de terminar o fim do prazo, fiz a reciclagem 

 

quarta-feira, 10 de maio de 2023

Memórias do Cota - Instrução militar/Vida de Recruta

 

Sou o segundo a contar da direita

Após o dia da incorporação, no dia seguinte, cinco de Setembro de mil novecentos e setenta e nove, pelas 07h30, depois de tomado o pequeno almoço, já o descrevi na página anterior, teve início a instrução militar.

Pertencia ao 4º pelotão com o número 648, a partir deste dia deixámos de ter nome e éramos chamados e conhecidos pelos respectivos números.

Ainda tenho, mais ou menos, relativa boa memória, mas sempre senti dificuldade em “guardar” nomes das pessoas por muito tempo. Infelizmente, não me lembro do nome de nenhum camarada que comigo compartilhou esta vivência. Talvez porque sempre fomos um número… sei lá.  

Ao invés, penso ainda recordar o nome do comandante de pelotão, aspirante miliciano Prezado, natural de Estremoz, quanto ao furriel e ao cabo, por mais voltas que dê neste “disco rígido”, não encontro nada, apagou-se por completo, azar…ainda não havia a tal “nuvem” que guarda tudo. Mas, tenho memória de terem sidos excelentes seres humanos, exigiam o que tinham de exigir, naturalmente também porque exigiam deles, mas sempre “dentro dos limites”.

A instrução militar, como o próprio nome indica, tinha a ver com a vida de um futuro militar. Ordem Unida, marchar muito, marchava-se em passo de corrida para tudo e para nada. Quedas na máscara, consistia em se ir em formação de ataque, composta por uma secção, que são duas esquadras no total de onze homens, e reforço homens, porque naquela altura, ainda não havia mulheres no exército. Hoje serão onze militares ou onze pessoas de género indefinido? armamento, tínhamos de conhecer as armas e o seu funcionamento, a famosa G3,  e outras, desmontar, limpar e voltar a montar. Tiro efectuado na carreira de tiro do Falcato. Será que esta carreira de tiro ainda existe? Educação física, toda e mais alguma…legislação como o RDM – Regulamento Disciplinar Militar e CJM - Código de justiça militar. As unidades e regiões militares existentes, ah! naturalmente os postos (graduações) militares, primeiros socorros, enfim uma panóplia de coisa que tinamos de saber.

Quase no final da instrução que durava mais ou menos três meses de “vida dura” vinha a tão “desejada” semana de campo.  

Consistia esta “semana de campo” na ida para o campo, num imaginário “teatro de guerra”. Felizmente para todos nós a guerra nas ex. colónias ultramarinas já tinha terminado. Havia sempre um inimigo que invadia Portugal, se a memória não me falha eram sempre os espanhóis. Resquícios e medos do passado. Naturalmente ganhávamos sempre, ou seja os espanhóis continuavam a ser derrotados…pudera…eles nem apareciam…uns pelotões faziam de inimigo e outros de patriotas e assim se “brincava” às guerras.

Mas nisto somos bons, enganarmo-nos a nós próprios e pior ainda, deixarmo-nos enganar. Acreditar que ganhamos sempre, mas quem ganha são os outros, os que nos manipulam…no ainda hoje “teatro político”. Podemos continuar com manifestações, comissões de inquéritos parlamentares, demissões ou exonerações fictícias, que tudo isto não passa por ser apenas, “uma semana de campo”. Só que neste caso quem treina, brinca, são eles, políticos que, a cada dia estão mais espertos.

Ainda me lembro, a minha semana de campo foi invernosa. Choveu de dia e de noite. Andámos sempre ensopados. Dormíamos três recrutas, numa tenda que armávamos com três panos de tenda, tipo índio. Na “minha tenda” em vez de dormirmos três dormíamos quatro, talvez por eu ser tão magro que não ocupava espaço… O motivo foi outro, depois conto.

Não guardo má memória deste lapso de tempo da minha vida, para ser sincero, “até gostei”.  


segunda-feira, 24 de abril de 2023

Memórias do Cota - Incorporação no Exército

Só começamos a ter memórias quando deixamos de olhar para o umbigo e começamos a olhar para o rabo.

Quis fazer uma metáfora, mas acho que não consegui, como não sou de apagar, sigo em frente, para que não hajam dúvidas, esclareço o que pretendo dizer, começamos a ter memórias quando deixamos de olhar para a frente e começamos a olhar para trás. Já pertenço a esses, que olham mais para trás do que para a frente, daí permitir-me tê-las e descrevê-las.

Não o faço por vaidade ou por a minha vida ter sido assim tão importante...ou que seja do interesse dos outros/colectivo, embora, naturalmente para mim, ela seja o mais importante de tudo, por isso faço este exercício de ida ao passado, mantendo tanto quanto possível, os neurónios activos.

Pretendo ao mesmo tempo, que, vocês que me estão a ler, façam também este exercício. Já todos ouvimos “muita gente” dizer, “a minha vida dava um filme”. Porque é que é só a vida dos outros que dá um filme e a nossa não? desafio-os a criarem o vosso filme e mostrá-lo sem medos nem pudores.

Há quem só tenha, infelizmente, más memórias da sua passagem por esta vida. Duvido que haja alguém que só tenha boas memórias. Eu, como penso que será a maioria, tenho más e boas, embora me concentre nas que considero boas, mesmo que pareçam más aos olhos de outros.   

“Tive a sorte” de ter sido incorporado no exército, na minha cidade natal, Elvas, no antigo Regimento de Infantaria de Elvas, no pólo de São Paulo, onde hoje é a Escola Superior Agrária do Instituto Politécnico de Portalegre, a quatro de Setembro de mil novecentos e setenta e nove (04/09/1979), terceiro turno.

Lembro-me perfeitamente, apresentei-me por volta das dezasseis horas, muito perto da hora limite de apresentação que eram as dezassete horas.

Esta hora e este dia estão marcados indelevelmente na minha memória, porque a minha mãe ainda “bastante cedo”, fez questão de me acordar…

- Filho, levanta-te que está na hora. Tens de te apresentares no quartel.

- Que horas são? ainda é de noite…                                       

- São oito da manhã, despacha-te.

- Hummm! Ainda não está na hora, é muito cedo, tenho o dia todo para me apresentar.

- Deves querer que te venham buscar. Despacha-te!

Levantei-me como era meu hábito, às oito exactas.

Engonhei o dia todo. Foi um misto de sensações e sentimentos.

Sabia que tinha de ir e queria ir, mas…sentia o tal arrepio na espinha o tremor na barriga, sei lá, o medo do desconhecido, por isso, atrasei o quanto pude a hora de apresentação. Era a primeira vez que saia de debaixo da saia da mamã. Sim, fui o “filhinho da mamã” enquanto ela viveu, talvez por ser o “caga no ninho”. Infelizmente, só me deu colo, literalmente, até aos vinte e oito, sentava-me muitas vezes no seu colo, num abraço que só nós dávamos.. Que saudades…desse colo, de nos sentarmos lado a lado e encostar a minha cabeça no seu ombro. De me sentar num banco mais baixo e deitar a minha cabeça no seu regaço. Do seu cheiro, do seu olhar embevecido e também às vezes de tristeza, de repreensão, mas sempre, sempre, com o imenso amor de mãe.

Pelas quinze e trinta saí de casa, subi a estrada de Santa Rita, atravessei o jardim municipal e depois o jardim das laranjeiras, subi a rua da cisterna, passei à frente da casa de reclusão e finalmente entrei na porta de armas. No percurso a pé, demorei sensivelmente meia hora Encaminharam-me para uma sala ao cimo da ligeira rampa onde estava a ser feita a incorporação. Distribuíram-me o fardamento e encaminharam-me para a caserna. Pelas dezanove horas mandaram-nos formar na pequena parada e fomos encaminhados por filas de cada um dos pelotões para o refeitório que ficava mesmo em frente, lamentavelmente já não me lembro o que foi o jantar, mas deve ter sido alguma feijoada com muito toucinho.… Foi uma apresentação e incorporação  normal, não guardo nenhum episódio que me tenha “marcado”. Às vinte e duas horas tocou ao silêncio, é um toque lindo. A partir desta hora, não podia haver luzes acesas nem barulhos. Dormi nessa noite e durante toda a semana no quartel. Foi a primeira vez que dormi fora de casa. Chegado o fim-de-semana, pude finalmente regressar a casa para passar umas escassas horas. Ainda assim, fui um felizardo, porque em pouco mais de quinze minutos, a pé, estava de novo em casa. Houve quem tivesse pela frente, muitos quilómetros de comboio ou autocarro, o que diminuía ainda mais o tempo de permanência em casa.

No dia seguinte pelas sete horas tocou a alvorada, o que significava que os que não estivessem já levantados tinham de se levantar, fazer as camas como nos tinha sido explicado no dia anterior. A primeira formatura era a do pequeno almoço, tomado este, que consistia numa água preta a que chamavam café, água diluída num pó branco, a que chamavam leite em pó, mas que sabia bem, eu gostava, ainda gosto do sabor do leite em pó, um pão com marmelada ou manteiga. Davam-nos quinze minutos para engolirmos tudo. Para nos levantarmos da mesa tínhamos de pedir autorização ao oficial de dia, só nos era dada, depois de todos termos terminado Findo este tempo tínhamos de formar novamente na parada para dar início à instrução militar.

 

segunda-feira, 17 de abril de 2023

Memórias do Cota - Provas de Admissão

Em Junho de 1981, recebi uma notificação em casa, proveniente do Comando Geral da Guarda Nacional Republicana, onde me mandavam apresentar, no mês de Julho, não sei precisar em que dia, no antigo Regimento de Cavalaria, pegado com o antigo Batalhão 1 em Lisboa, para fazer as provas de selecção/admissão à Guarda Nacional Republicana. As provas consistiam numa prova cultural escrita de conhecimento geral, matemática/aritmética, essencialmente contas nas quatro operações, divisão, multiplicação, subtracção e adição   e respectivas provas reais e prova dos nove. Penso que também tinham um ou dois problemas. Português, texto com  interpretação, uma redacção e um ditado. Devido ao sotaque de cada um, do instrutor "ditador", por vezes, tornava-se difícil perceber determinadas palavras, ainda por cima, palavras, muitas delas que nunca tínhamos ouvido antes, por isso mesmo, os erros ortográficos eram mais que muitos. Acho que só podíamos dar no máximo três erros e cinco falhas de acentos, se ultrapassássemos esta "bitola" estávamos eliminados. De lembrar que a escolaridade obrigatória era a 4ª classe. Já não tenho a certeza se também houve uma prova de história de Portugal.

Estas provas eram as primeiras e eram eliminatórias, o resultado sabia-se no mesmo dia passada uma hora por aí, só quem passasse nelas passava à prova seguinte que era o exame médico, também ele eliminatório.

Cheguei a pensar que os médicos e os oficiais que faziam parte do júri, me iriam “chumbar” , porque os ouvi comentar que eu era “muito magro”, isto seria “bullying” nos dias de hoje. Eu estava nos antípodas do perfil físico do “guarda tipo”, que por estes tempos, um guarda, para ser “guarda republicano” tinha de ser barrigudo, atarracado, sem pescoço, a parecer-se mais com um barril, e tinha de ter um farto bigode, de preferência a fazer caracol enrolado para cima. Ora eu, era magro, muito magro na opinião de alguns, modéstia à parte, elegante, imberbe, sem corpo e sobretudo sem “cara para levar uma chapada”, como ia pôr ou impor ordem ou respeito na população?   

Não são só os gordos que são atacados de bullying, mas adiante, devem ter visto mais alguma coisa, para além da minha “magreza”, ah! devo fazer aqui uma ressalva, eu era de facto magro, ainda hoje de certa forma sou, mas não era nem sou cadavérico, ahahah embora tenha uma foto com dezasseis anos, em calções de banho, que só se veem ossos, costelas especialmente…ahahah, depois de alguma discussão lá resolveram passar-me à prova seguinte, que seria a prova física, que consistia numa corrida de no mínimo de dois mil e quatrocentos metros (2400 m) no tempo máximo de doze minutos. Cem metros em oito segundos, cinco elevações na barra, não sei quantos abdominais, umas flexões de pernas, salto em comprimento de dois metros a pés juntos, sem impulso e já não me lembro se também, o salto de uma vala e um muro. As provas físicas se a memória não me falha decorreram em Monsanto. Isto de estarmos a escrever passados tantos anos, tem disto…a memória, deixa de ser memória e passa um pouco a ficção…    

Como não me pesava a gordura, transportar os ossos e a pele foi fácil…

Cada uma das provas físicas eram também eliminatórias. Ou seja, à medida que íamos fazendo provas, sabíamos se estávamos eliminados ou não.

No final do bloco das três provas, cultural, médicas e físicas estávamos reduzidos a menos de metade.

Passada uma hora ou pouco mais e já tomado o respectivo banho, os que tínhamos chegado ao fim, fomos reunidos numa sala, onde foi anunciado se todos tínhamos passado ou não.

De imediato, fomos conduzidos para uma outra sala, para escolhermos as unidade/subunidades onde queríamos frequentar o alistamento.

O alistamento era o que é hoje o Curso de Formação de Praças, ministrado em cerca de cinco meses e decorria a na zona norte, Porto, zona centro, Coimbra, zona de Lisboa, Zona Sul, área do batalhão 3 – Évora. Nesta zona em concreto que era a que me interessava, decorria em Portalegre, em Reguengos de Monsaraz, em Beja e em Lagos.

Sendo eu natural de Elvas e residindo nesta bela cidade, naturalmente, escolhi a cidade de Portalegre para frequentar o alistamento, por ser a que ficava mais perto.

Escolhido o local de frequência do alistamento, logo me disseram que o mesmo teria início no dia três de agosto de mil novecentos e oitenta e um, data em que me deveria apresentar no Comando da Companhia Territorial de Portalegre.  

(esta história tem seguimento)

 

sexta-feira, 7 de abril de 2023

Memórias do Cota - Admissão à Guarda (GNR)

Estamos no ano da graça, de mil novecentos e oitenta e um, (1981) mês de Março, tenho por esta altura vinte e dois anos.

Tinha terminado a dezoito de Dezembro de mil novecentos e oitenta, (1980) o serviço militar obrigatório.

Estava parado, sem nada que fazer, sem nenhuma ocupação e sem nenhum rendimento. Os dias sucediam-se uns à frente de outros e nada acontecia para alterar esta situação. Tinha necessidade precisamente do contrário, de estar ocupado, ainda hoje tenho essa necessidade, e sobretudo de ter um rendimento que me sustentasse.

Se a memória não me falha muito, creio que estávamos no meio de Março, ao cruzar-me numa das ruas da cidade de Elvas, rua de Alcamim, com uma amiga e ex-colega de escola, que já estava “assegurada”, trabalhava no registo civil de Elvas, lamentei-me desta minha inactividade e falta de perspectivas de futuro.

- Acabei a tropa no final do ano. Não sei que hei-de fazer agora.

- Porque não concorres à guarda? (GNR). Como sabes o meu pai é lá cabo, (Cabo Manteigas) vai ter com ele e diz-lhe que estivemos a falar.

Como eu mais tarde vim a aprender, um Cabo da GNR por estes anos, era um Senhor. Quero com isto dizer que em muitas localidades era a AUTORIDADE. Respeitado e obedecido por todos. Os ciganos, repito! os ciganos, sem medo das palavras, tinham um respeito incomensurável aos guardas em geral e aos Cabos em particular e na mesma medida eram por estes respeitados, o que não impedia que uma ou outra vez, se tivesse de empregar a força para fazer cumprir algum preceito legal. .

Infelizmente tal deixou de acontecer.  

Embora me tenha “dado bem” na tropa, nunca me imaginei a seguir a vida militar, pese embora, tenha recebido incentivos por parte se superiores hierárquicos, para seguir esta carreira profissional.

O “bichinho” da conversa entrou na minha cabeça, começou de imediato a fazer ninho, fazia sentido, porque não? o que é que tinha a perder? quanto muito, tinha era a ganhar.

Não dei tempo a que ele abandonasse o ninho. Dou comigo a dirigir-me ao posto da GNR que, por esta altura, estava sediado na Rua de São Lourenço em plena cidade de Elvas, a dois passos da rua de Alcamim.

Era um edifício velho, entrei, não havia ninguém no hall de entrada, subi as escadas e bati a uma porta que se encontrava semifechada, podia dizer semiaberta, mas não, o modo como eu via todas as portas eram fechadas.

Apareceu-me um guarda, disse a medo.

- Quero falar com o cabo Manteigas.

- O que é que você quer falar com o cabo Manteigas?

Hesitei, apesar de ter sido militar, acho que as minhas pernas tremiam.

O bichinho que estava na minha cabeça, falou por mim.

- É um assunto particular.

O guarda, virou-se ligeiramente de lado, sem ter saído da minha frente, gritou para a sala contígua.

- Cabo Manteigas chegue lá aqui, está aqui um fulano que quer falar consigo.

Da outra sala oiço alguém pronunciar.

- Só um momento, já vou.

Os minutos de espera, poucos, ou quase nenhuns, pareceram-me uma eternidade.

Por fim apareceu o Cabo Manteigas, pessoa que eu conhecia pessoalmente, por ter frequentado a casa dele, e ter dado “explicações” de geometria descritiva à filha e minha ex-colega de escola, que se queria apresentar a exame externo, para completar o sétimo (7º) ano do liceu, correspondente aos dias de hoje ao 11º.    

Muito afável, cumprimentou e perguntou-me.

- O que é que o traz cá?

- Estive a falar com a Graça, e ela sugeriu-me que viesse falar consigo “pra” “meter os papéis” “prá” guarda.

- Oh! Que boa ideia, é já. Espere só um pouco.

Dirigiu-se a um armário onde guardava os formulários, voltou logo depois com uma série de folhas A4.

- Sente-se aqui nesta secretária e vá preenchendo. Se tiver dúvidas pergunte.

- Obrigado.

Sentei-me e comecei a preencher as folhas, não me lembro se tive dúvidas no preenchimento, mas devo ter tido…

No final entreguei-lhe as folhas, ele verificou, e disse:

- Está tudo devidamente preenchido. Aguarde que há-de receber uma notificação, para se apresentar numa Unidade da Guarda para fazer exames de admissão.

Naquela altura, as forças policiais, tinham de informar sobre a “conduta de cidadão” não sei se era este o termo correto, mas não devia ser, já que este me ocorreu agora, mas o que se pretendia era que todo o candidato à guarda, e não só, extensível a todo o sector do estado, tinha de ter uma informação de qual era o seu comportamento na sociedade e só seriam aceites, como candidatos, os que tivessem “a folha limpa”.  

Despedi-me com um

- Muito obrigado.

Naquele tempo, não esqueçamos que estamos em 1981, não haviam “concursos públicos” para admissão ao serviço do estado.

As candidaturas à guarda estavam ininterruptamente abertas, embora as provas de admissão, escritas, médicas e físicas, obedecessem como é natural a uma calendarização.

(esta história tem seguimento)    

 

 

quinta-feira, 6 de abril de 2023

Gostos não se discutem?

Estive para passar por entre os “pingos da chuva” o mesmo é dizer, ficar em “casa” ou seja em silêncio e tentar não me molhar, mas, a vontade de sair é grande e como quem anda à chuva, molha-se, eu não vou sair daqui enxuto.

Nestes últimos dias tem sido polémica uma publicação/crónica de um tal Alexandre Pais, onde ele aprecia o aspecto físico de Maria Botelho Moniz e especialmente os braços da Cristina Ferreira. Fetiche por braços? Vá-se lá saber…

Esta publicação gerou uma onda de apoio às visadas e uma onda de contestação ao signatário da crónica. Até aqui, tudo normal, penso eu, já que, “gostos não se discutem”.

Antes de mais, quero dizer que no “meu gosto”, acho lindíssimas quaisquer das visadas, e nenhuma delas está “desproporcionada” o que não quer dizer que não possam haver “arranjos”.

Estamos a viver uma época em que não se pode olhar, não se pode tocar, não se pode pensar, não se pode dizer, especialmente se esse pensar e dizer forem contra a corrente “Woke”.

A Maria Botelho Moniz, teve honras de entrevista, na empresa onde trabalha, no programa Goucha, para além do programa que apresenta os 2 às 10. Até aqui tudo bem, o Goucha escolhe/entrevista quem quer, mas pergunto eu, não seria de “bom tom” também já ter convidado o cronista?

Há uns tempos, se a memória não me falha, até saiu um decreto-lei a proibir os “piropos”, onde já se viu?

Sempre houve e continuará a haver enquanto o mundo for mundo, homens e mulheres gordas, baixas(os), feias(os), magras(os), altas(os), bonitas(os), se continuar com estas descrição não vou terminar tão depressa…

Quer os “Wokes” queiram ou não, um(a) gordo(a) é um(a) “bucha”, ponto final. Um magro(a) é um(a) “lingrinhas”, um “pau de virar tripas”, uma pessoa alta é “uma girafa”. Também aqui não terminaria.

Se eu fizer uma apreciação ao aspecto físico de uma pessoa e disser – és linda! Sendo ou não, não tem problema, porque estou a elogiar a pessoa. Uma treta! Se a pessoa não é linda, eu não estou a elogiar coisa nenhuma, estarei até a desrespeitá-la ou “gozá-la”, mas pronto, a moda “woke” assim exige.

Se eu disser – estás gorda! Tens de fazer dieta, fazer mais exercício físico, etc, já estou a ofender a pessoa. Mas que raio, a pessoa não tem espelhos em casa? Compreendo e aceito que a pessoa até se sinta bem na “sua pele” é um direito que eu lhe reconheço, mas por que carga de água, eu não posso fazer a minha apreciação e dizê-la frontalmente e com sinceridade?  

O mesmo se põe no aspecto intelectual. Se eu digo – és inteligente, sendo ou não, não há problema. Se eu digo és burro que nem uma porta, cai o santo e a trindade.

A opinião dos outros só tem a importância que nós lhe dermos.

Só há polémica porque as revistas e os órgão de comunicação social querem vender e cingir-nos à sua ideia.  

Vão mas é pastar caracóis.

Se há pessoas que não suportam a crítica, nunca vão modificar, nunca vão melhorar. Se não conseguem sós, peçam ajuda especializada.

Reconheçam e vejam o lado positivo da crítica. Ao contrário do que a maioria imagina e defende, a crítica, não é para deitar abaixo, antes pelo contrário, é para elevar e fazer melhorar a pessoa.    

Toda a vida fui chamado de lingrinhas e de pau de virar tripas e nunca me senti ofendido nem diminuído por isso. Era uma constatação. Tinha, ainda tenho consciência que sou magro, embora hoje já pese um pouco mais, mas isso é da velhice…

Ah! E o corpo fica mole sim. Fica flácido, os braços caiem, a pele do pescoço fica um “desastre”,

Ah! já me esquecia, o pau nem sempre levanta…ahahhaah .  

Deixem-se de tretas!

 

terça-feira, 28 de março de 2023

O Foco Cega-nos

foto público.pt

"Em terra de cegos, quem tem um olho é rei" 

A saga do NRP Mondego da marinha portuguesa continua.

Quando da “insubordinação” dos treze militares, tive a oportunidade de nestas páginas, à semelhança de outros, nas suas, militares ou não, de dar a minha opinião sobre o acontecimento.  

Para uns, há/houve insubordinação e indisciplina por parte dos treze militares, para outros, um “acto heróico”. Situo-me mais nesta posição, embora possa admitir, eventualmente, alguma infracção disciplinar e criminal.

Mas, não me cabe a mim, como não cabe a nenhum dos “opinadores”, avaliar se há/houve estas infracções. Essa competência pertence aos tribunais e à estrutura de comando da marinha. Aos presumíveis infractores e aos seus advogados cabes-lhes proceder à sua defesa. O certo é que os recursos hierárquicos, dentro da estrutura, dos processos disciplinares, estão feridos antes de nascerem, o mesmo é dizer, nascem mortos, quando as entidades de recurso e neste caso, o Chefe do Estado Maior da Armada, já proferiu publicamente a sua decisão, mesmo antes de se ter dado inicio aos respectivos processos. Caberá apenas, o recurso ao tribunal administrativo, para que se profira JUSTIÇA.

No entanto, à semelhança do que outros já expressaram e concretamente os advogados dos “infractores” não posso deixar de realçar que a atitude/comportamento do Chefe do Estado Maior da Marinha não foi de todo isenta, de ter havido também, para além de eventuais crimes, eventuais infracções disciplinares. Todo o militar sabe que um superior hierárquico não pode punir um inferior na presença de subordinados seus. O que o Sr Almirante Gouveia e Melo fez, por mais que depois o negue, foi no mínimo uma repreensão agravada em público e na presença de subordinados dos infractores. Hoje, direi mesmo, enquanto proferia a “repreensão agravada” o Sr Almirante Gouveia e Melo tem/teve a consciência que, estaria a cometer ele próprio uma infracção, só que, a ânsia que o foco incida sobre ele “cega-o”.        

A comunicação social e a maioria dos “opinadores”, centraram o seu foco nas eventuais infracções dos treze militares, como se estas infracções fossem inéditas nas forças armadas e nas forças policiais, lamento desiludi-los, mas não são inéditas, Em muitos casos, como será o deste, felizmente que não são.

Preferi incidir o foco, e continuo a preferir, em salientar a coragem, destes trezes militares, sabendo os riscos e eventuais consequências que corriam, em expor situações que em nada dignificam as forças armadas e neste caso particular a marinha portuguesa.

Tiveram a coragem de denunciarem situações, que cabiam aos comandantes e mais concretamente ao comandante da embarcação, mas que este, por falta de coragem não o fez. Talvez porque, ao que dizem, é preciso coragem, eu diria, “tomates”, para enfrentarem e contradizer o “todo poderoso” almirante Gouveia e Melo.

À data de hoje (28/03/2023) sabemos que o NRP Mondego não completou “a missão” de substituição de pessoal nas ilhas desertas, tendo sido rebocado de regresso à Madeira, mesmo depois de algumas reparações de emergência, para dar “ares” de que estaria em condições de navegabilidade aquando da “insurreição”.

Na marinha, e em especial o Chefe do Estado Maior da Armada, pode tapar o sol com a peneira de que nunca mandariam o navio para uma “missão impossível”, fica claro que os trezes “revoltosos” tinham mais que razão.

Hoje estamos a falar da marinha, mas, podemos perguntar como está a "sucata" nos outros ramos da forças armada? 

Não, não vou falar nos "Leopard 2". 

São estas as forças armadas que o país quer? 

Já sei que "muitos", não querem militares, afinal para que servem? só para dispêndio,  que pelo que se vê, não tem sido assim tanto, dado o estado calamitoso em que se encontram as forças armadas. Os "muitos" não foram assim tantos, foram os que detinham o poder suficiente, para quase acabarem com eles. Só que, como diz o povo, em altura de trovoada, lembram-se de Santa Bárbara.

Perante esta incapacidade de cumprimento de missão, por inoperacionalidade do NRP Mondego o que nos tem a dizer o Comandante do navio e o Chefe do Estado Maior da Armada?

O Sr almirante Gouveia e Melo, neste momento, deve estar sem chão…AFUNDOU-SE nas suas próprias palavras.

Em situações “análogas” a comunicação social, os “opinadores” e o governo, por esta altura, já teriam “decepado” a cabeça do Sr Almirante Gouveia e Melo. Veja-se o caso da TAP, não hesitaram em fazer rolar as cabeças dos CEO(s).

Sempre que há situações que de forma directa e indirecta, envolvem o governo e o estado, não se ouve uma palavra do Sr primeiro ministro. Este, para além de cego, fica surdo e mudo. É o deixa andar que, logo, logo, todos esquecem…

Nestas circunstâncias, o Sr almirante Gouveia e melo, não deveria ou deverá já ter posto o lugar à disposição? O que o faz continuar?

Será que o foco numa hipotética candidatura à presidência da república lhe tira a visão?

O actual presidente da república já lançou a “candidatura” de quatro eventuais interessados, porque ainda não lançou a candidatura do Sr. Gouveia e Melo? Quando já é conhecido o interesse deste nesse cargo. Será que não confia nele, tanto quanto diz?

Aguardemos os próximos episódios.          

 

quinta-feira, 16 de março de 2023

E "Bota Abaixo"

Foto dnoticias.pt

Como militar que fui, sou, embora já afastado à cerca de treze anos, xiiiii! Como o tempo passa…não posso deixar de manifestar o meu “sentimento” sobre o “acontecimento” do NRP Mondego da Marinha Portuguesa.

A história, conhecemo-la, por ter sido amplamente divulgada na comunicação social do “Reino”, perdão da república. Resume-se essencialmente à “insubordinação por desobediência” de quatro SARGENTOS e nove PRAÇAS, as maiúsculas não são por lapso nem por acaso.

Sargentos e Praças que dão o corpo “às balas”. Já que os comandantes, não souberam ou quiseram dar o “murro na mesa”, fizeram-no eles. O meu respeito a estes homens.

Infelizmente vão ser “cravejados”, têm de servir de exemplo que, na marinha, não há insubordinados nem “usurpadores de funções”.  

Esta insubordinação por desobediência, deve-se, nos argumentos dos insubordinados, entre outros, aos factos de:

- O NRP Mondego apresentar limitações técnicas graves que comprometem a segurança do pessoal e do material e o compromisso da respectiva missão;

- Em formatura na ponte, o próprio comandante, assumiu perante a guarnição que não se sentia confortável em largar com as condições técnicas que o navio apresenta;

- As previsões meteorológicas apontavam para ondulação de 2,5mt a 3mt, com período de 7 segundos;  

- O navio possui dois (2) motores estando um (1) deles, o de Bombordo, INOP. Este motor necessita de uma manutenção W4 há cerca de 2000 horas de funcionamento;

- O motor de Estibordo com fugas diversas, em tudo idênticas às fugas identificadas no motor de Bombordo, com consumo de óleo. Este motor necessita de uma manutenção W4 há cerca de 2000 horas de funcionamento;

Duas mil horas correspondem a oitenta e três dias de funcionamento como eles dizem, mas certamente representam muitíssimos mais dias. Ou seja, neste lapso de tempo o que é que o comandante, as minúsculas não são lapso nem erro, fez para resolver este problema e salvaguardar as vidas dos tripulantes, inclusive a sua? 

O que é que o Sr Almirante Gouveia e Melo fez? Não tinha conhecimento destas anomalias? E nos outros equipamentos da marinha?

O que é que o governo fez? Não tem conhecimento do estado em que se encontram as Forças Armadas? Ou melhor dito, serão Forças Desarmadas?

Naturalmente isto é apenas uma gota de água num imenso oceano.

Quase aposto que, o Sr Almirante Gouveia e Melo estava “deserto” que algo acontecesse na “sua” marinha, para aparecer de novo na “ribalta nacional” e assim fazer que não se esqueçam d’ele. Afinal o homem tem de estar sempre na ribalta se quer ser presidente da república, não vão outros ultrapassá-lo, como ele, eventualmente, fez com outros do seu ramo, tendo inclusive, mandando o seu antecessor embora antes de ter terminado a missão para que fora nomeado. Fazer frente e exigências ao governo, nunca!

A ser verdade, e não me custa mesmo nada em acreditar que seja, que o comandante assumiu em formatura perante a guarnição que não se “sentia confortável” em largar, porque LARGOU ao infortúnio, de um processo disciplinar e criminal trezes militares seus?

Se é verdade que o comandante falou perante a guarnição, "não me sinto confortável", será que os restantes militares têm a coragem de confirmar em inquérito tais palavras. Não me parece...teriam de ser homens...

As razões estão bem de ver “falta de tomates” e carreirísmo, agora cada um que se desenrasque é o que a “tropa” manda fazer…

O que menos importa aqui não é o crime de insubordinação, embora seja por este e outros que eles vão pagar. O que importa é o dislate de terem metido a “boca no trombone”, ainda por cima, não sendo músicos…

Como pessoa, desde criança, ensinaram-.me e aprendi que, “Quem quer ser respeitado, tem de se dar ao respeito”. Como militar apenas vim a reforçar este aprendizado, tendo-o praticado sempre. Sempre respeitei e sempre fui respeitado. Bom, quase sempre, infelizmente na fase final da minha carreira, e no topo desta, senti que não fui respeitado.

Tinha como adquirido, sendo “garantia” que palavra de Comandante era “escritura” “assinada” e “autenticada”. Infelizmente nem todos os Comandantes, hoje para mim, comandantes assim o entendem.

Há comandantes pequenos.

Há comandantes políticos no ativo.

Passei por uma experiência, que ainda hoje, já passaram dezasseis anos, ainda me é “traumatizante” pela falta de caracter, honradez e assunção de palavra dada de um comandante.

Uma história entre muitas que poderia contar e que talvez um dia escreva nas minhas “memórias”.